Duelo silencioso (Shizukanaru ketto, Japão, 1949), de Akira Kurosawa, é adaptado de uma peça teatral de Kazuo Kikuta. Durante a Segunda Guerra Mundial, o jovem médico Kyoji (Toshiro Mifune) contrai sífilis de um paciente durante uma operação.
Após o fim da guerra, o médico esconde a doença de todos. Ele estava de casamento marcado com um amor de infância, mas cancela o casamento sem explicações. Grande parte da trama se passa em um pequeno núcleo, dentro do hospital onde Kyoji trabalha, junto com seu pai. Cada vez mais dedicado ao trabalho, Kyoji se isola das relações sociais, convivendo amargurado com sua doença.
O ponto de destaque do filme é um longo e ousado monólogo do Dr.Kyoji, quando ele revela a sua jovem assistente a luta diária que empreende contra seus desejos masculinos. Toshiro Mifune, parceiro habitual de Kurosawa, oscila entre a amargura complacente e a raiva, um grande e inesquecível momento da interpretação no cinema.
Em Cão danado, Kurosawa faz uma incursão pelo gênero policial, com referências ao cinema noir. Na abertura do filme, Murakami (Toshiro Mifune), jovem policial do departamento de homicídios, tem seu revólver roubado dentro de um ônibus lotado. Envergonhado, ele entrega seu distintivo ao chefe. O chefe recusa. Murakami então empreende uma busca desesperada pelo submundo de Tóquio em busca do revólver.
O tom noir é marcante, na fotografia em preto e branco, nas ruelas, becos, bares e prostíbulos que o policial passa a frequentar e, principalmente, na composição das personagens. Em sua busca obsessiva, Murakami se defronta com uma série de marginais do mercado negro, contrabandistas de armas no Japão do pós-guerra que vêem no crime a única alternativa de vida. O olhar de Murakami sobre esses marginais se torna cada vez mais e mais compassivo, mesmo quando vinga o atentado contra seu companheiro de investigação, o policial sente tristeza e resignação diante deste mundo sem esperanças.
Atenção para a longa sequência silenciosa do policial caminhando pelos bairros decrépitos do mercado negro, afundados no calor e na lama, apinhados de crianças, jovens, adultos e idosos que tentam sobreviver nas ruas.
Cão danado (Nora inu, Japão, 1949), de Akira Kurosawa. Com Toshiro Mifune, Takashi Shimura, Keiko Awaji.
Um dos primeiros filmes de Kurosawa, A mais bela foi feito como uma espécie de encomenda da produtora, como parte do esforço de guerra japonês. A trama se passa inteiramente em uma fábrica de instrumentos óticos destinados a artilharias de guerra. O ritmo de produção deve ser acelerado para suprir as necessidades do conflito e cotas de produção são estipuladas. As trabalhadoras devem cumprir a metade da cota destinada aos homens. Lideradas pela supervisoras Mizushima e Watanabe, as mulheres exigem um aumento de cota.
O filme representa uma visão feminista no japão durante a guerra, representada pela pequena rebelião das jovens trabalhadoras que não aceitam diferenças de cotas tão grandes entre elas e os homens. No entanto, resvala frequentemente para o ufanismo dos filmes do gênero, com as mulheres tentando se afirmar também como guerreiras, incluindo o sacrifício em jornadas extenuantes de trabalho. O ponto forte da narrativa é a solidariedade, o carinho, o afeto que marcam o trabalho em equipe das operárias.
A mais bela (Ichiban utsukushiku, Japão, 1944), de Akira Kurosawa. Com Takahashi Shimura, Soji Kiyokawa, Ichiro Sugai, Takako Irie.
Quem ama não teme (Never fear, EUA, 1949), de Ida Lupino. O filme abre com a tradicional sequência do gênero musical: um casal de jovens dançarinos se apresenta em um nightclub da Califórnia. A sequência, belamente coreografada, destaca Carol Williams (Sally Forrest), de pernas exuberantes, gestos graciosos e um olhar apaixonado para seu par dançante, Guy Richards (Keefe Brasselle). O casal tem uma promissora carreira pela frente, Guy compondo e coreografando, Sally se afirmando como dançarina. Pouco depois, Carol passa mal, é internada e diagnosticada com poliomielite. É o fim de sua carreira precoce e, possivelmente, de seu caso de amor com Guy.
Ida Lupino dirigiu apenas seis filmes, uma das únicas mulheres a ter esse privilégio durante a chamada era do cinema clássico americano, entre os anos 30 e 60. A maioria de seus filmes trazem protagonistas femininas fortes, humanas, que em alguns momentos se entregam à fatalidade, mas se erguem e lutam. É o caso de Carol (espécie de biografia de Ida Lupino que também sofreu com a pólio na infância).
A narrativa está impregnada de cores reais no processo da doença da dançarina, retratando de forma vívida o drama dos cadeirantes e o sofrimento físico e emocional diário a que são submetidos nos hospitais de reabilitação. Um dos pontos fortes da trama está na amizade entre Carol e Len Randall (Hugh O’Brien). Os dois são cadeirantes e estão internados no mesmo hospital. Len tem um ar jovial, otimista, alegre, ajuda a todos, ao contrário de Sally, entregue à tristeza e à depressão. Entre os dois, Sally é a única com possibilidades de cura, mas é Len quem se esforça ao máximo nos exercícios, demonstrando uma esperança contagiante. O olhar e a direção sensível de Ida Lupino transformam essa luta cotidiana em gestos de amizade, amor e companheirismo.
John Forbes vive uma tranquila vida de casado. É corretor de seguros de uma grande empresa, sua rotina se divide entre casa e trabalho, deixando transparecer o tédio que sente no dia-a-dia. Ele se vê envolvido em um caso de fraude à segurada, quando o responsável, Smiley, é preso. John Forbes precisa recuperar os bens que foram doados por Smiley à sua namorada, Mona Stevens.
Esse encontro encaminha a trama para a tradicional entrada em cena da femme fatale, marca registrada dos filmes noir. No entanto, a grande vítima da narrativa acaba sendo Mona. John Forbes se apaixona por ela, os dois começam um perigoso caso extraconjugal, pois MacDonald, um investigador particular que trabalha para a corretora, também está apaixonado por Mona. Ele usa de todos os meios para conquistá-la, incluindo chantagem, armando uma complexa armadilha para Forbes no final do filme.
O final, triste e doloroso, revela como homens cruéis, MacDonald, e os pretensamente íntegros, Forbes, podem destruir a vida das mulheres com quem se relacionam.
O caminho da tentação (Pitfall, EUA, 1948), de André De Toth. Com Dick Powell (John Forbes), Lizabeth Scott (Mona Stevens), Raymond Burr (MacDonald).
Sally, uma jovem e ingênua garçonete, se apaixona pelo pianista que toca onde ela trabalha. O caso resulta em uma gravidez, mas o pianista muda de cidade, em busca do seu sonho de ser compositor. A jovem vai à sua procura, mas é renegada e abandonada. Desesperada, sua decisão é se internar em uma instituição que cuida de jovens solteiras grávidas e buscam pais adotivos para as crianças.
Mãe solteira é o primeiro filme dirigido pela consagrada Ida Lupino. Ela assumiu o filme durante as filmagens, substituindo Elmer Clifton, que sofreu um ataque cardíaco. Lupino tinha 31 anos e foi responsável pelo roteiro do filme, além de atuar como co-produtora.
Lupino impôs um olhar feminino ao drama de Sally, sofrendo com o abandono e as angústias quase insuportáveis da sua decisão de ceder o filho para adoção. Uma característica marcante de Mãe solteira, fruto da experiência da diretora como atriz no cinema clássico americano, é a narrativa visual, com momentos dramáticos transmitidos por planos longos e pela montagem com cortes secos e precisos.
Mãe solteira (Not wanted, EUA, 1949), de Ida Lupino e Elmer Clifton. Com Sally Forrest (Sally Kelton), Keefe Brasselle (Drew Baxter), Leo Penn (Steve Ryan).
Roma, cidade aberta talvez seja o filme mais contundente sobre a Segunda Guerra Mundial. Foi realizado ainda no calor dos conflitos, quando os americanos libertaram Roma da ocupação nazista. Roberto Rossellini passou parte da ocupação se escondendo, trocando de casa com frequência para evitar ser recrutado para lutar pelo fascismo. O diretor usou suas experiências no filme, os membros da resistência se escondem em casas, trocam de lugar, andam pelos telhados à noite.
A realização do filme foi complexa, não havia película disponível, a equipe passava dias procurando material com fotógrafos e outros cinegrafistas. Quando conseguiam, filmavam rapidamente nas ruas, em caráter documental. Segundo Aldo Fabrizi, “Geralmente, o negativo acabava antes da cena”, dotando a obra com os famosos cortes abruptos que influenciaram decisivamente o cinema moderno.
Três sequências entraram para a galeria de antologias do cinema: a morte de Pina, alvejada por um tiro quando corre pela rua atrás do caminhão que leva seu noivo Francesco; a tortura de um membro da resistência, filmada em plano fechado, com realismo aterrador; a execução do padre no final do filme, vista pelos olhos das crianças que jogavam futebol com ele em frente à igreja.
“Como notaram os críticos, Roma, cidade aberta não é explicitamente um filme neorrealista como parece de início. Além da filmagem documental, reúne elementos que combinariam mais com um melodrama hollywoodiano. Há uma dona de casa corajosa (Anna Magnani) que parece uma Sra. Miniver italiana, meninos de rua heróicos e um padre bem semelhante ao padre Brown. Numa cena assustadora, a jovem atriz que trai a resistência desmaia ao perceber o sofrimento que causou. Ela recebera um casaco de pele como propina para delatar os combatentes. Enquanto está desfalecida, seu casaco é retirado do corpo para ser reutilizado no convencimento de outra traidora. Ninguém sabia filmar uma cena de morte melhor do que Rossellini: o assassinato de Magnani, correndo pelas ruas, a execução do padre diante de várias crianças são encenadas como o máximo de compaição e dramaticidade.”
Roma, cidade aberta (Roma, città aperta, Itália, 1945), de Roberto Rossellini. Com Anna Magnani, Aldo Fabrizi, Marcello Pagliero.
Referência: Tudo sobre cinema. Philip Kemp (editor geral). Rio de Janeiro: Sextante, 2011
Críticos afirmam que Alemanha, ano zero é o filme essencialmente neorrealista de Roberto Rossellini. A narrativa acompanha o menino Edmund em sua jornada por uma Berlim em ruínas, após a Segunda Guerra Mundial, em busca de trabalho e comida. Seu pai está doente, o irmão desertor não pode sair de casa, cabe à irmã e a Edmund o sustento da família. Um encontro entre Edmund e seu ex-professor, um pedófilo, muda os rumos da história. O professor diz ao menino que os velhos e doentes devem morrer para que os jovens sadios sobrevivam.
Roberto Rossellini estava produzindo o filme quando foi surpreendido com a morte de seu filho Romano, aos nove anos de idade. A profunda amargura e tristeza na jornada de Edmund é reflexo desse luto. O registro documental da cidade destruída, das pessoas em busca de comida, de trabalho, vivendo apinhadas em pequenos cômodos, expressa também a falta de esperança, de dignidade. O ato de Edmund, influenciado pelas ideias do professor, é praticado de forma fria, como se fosse inevitável. Assim como o gesto final da criança. Realismo, neorrealismo, cinema, não importa, Alemanha ano zero é o documento decisivo daquilo que não podemos esquecer.
Alemanha, ano zero (Germania anno zero, Itália, 1948), de Roberto Rossellini. Com Edmund Moeschke, Ernst Pittschau, Ingetraud Hinze.
Após o clássico Os sapatinhos vermelhos (1948), a dupla Powell e Pressburger se volta para uma história simples, mas potente devido ao contexto histórico. Durante a Segunda Guerra Mundial, Sammy Rice trabalha em um departamento de pesquisa de tecnologia na Inglaterra. Ele é especialista em desarmar bombas e recebe a incumbência de auxiliar o Capitão Stuart para descobrir os mecanismos de desarmamento de uma complexa bomba alemã, que se assemelha a uma garrafa térmica. A bomba estava sendo colocada em locais de circulação de civis, vitimando inclusive crianças.
A grande sequência do filme é a tensão lenta, angustiante, de Sammy tentando desarmar uma das bombas na praia. A narrativa também aborda os problemas pessoais do especialista. Ele é alcoólatra, vive em seu pequeno apartamento com Susan, que tem papel decisivo em sua vida. Susan ajuda o namorado a combater o vício e a insegurança diante de sua capacidade profissional. De volta ao pequeno apartamento reflete o nome: um filme simples, mas que retrata um momento de profundas angústias individuais e sociais, quando se destacam atos às vezes heróicos, outras vezes simples, na tentativa de preservar a humanidade.
De volta ao pequeno apartamento (The small back room, Inglaterra, 1949), de Michael Powell e Emeric Pressburger. Com David Farrar (Sammy Rice), Kathleen Byon (Sasan), Michael Gough (Dick Stuart), Milton Rosmer (Prof. Mair).
A cinematografia italiana tem forte tradição no melodrama, cujas tramas se amparam no conservadorismo da sociedade durante os anos fascistas. É o caso de Mulher tentada.
Rosa vive dias felizes ao lado do marido e seus dois filhos, as crianças Anna e Tonino. Guglielmo, marido de Rosa, é mecânico de uma cidade litorânea na Itália. Um dia, um viajante chega na sua oficina, seu carro queimou a bobina, ele tem pressa, não pode perder tempo para chegar ao seu destino. Na verdade, o viajante faz parte de uma quadrilha de ladrões de carros, comandada por Emilio, morador da cidade.
Emilio vai até a oficina para recuperar o carro e é atendido por Rosa. Esse encontro representa a virada da trama: os dois foram noivos no passado, separaram-se devido a uma longa viagem de Emilio. Rosa resiste aos assédios que passa a sofrer de Emílio, que não aceita uma nova separação, chegando ao ponto de chantagear a mulher.
A narrativa apresenta viradas, encaminhando a trama para a tragédia anunciada entre Guglielmo e Rosa. O apoio em narrativa de gênero, com viradas que deixam o espectador com o coração nas mãos, afinal, estamos falando de melodrama, demonstra outra forte característica da cinematografia italiana: roteiros bem construídos, saídos de uma verdadeira escola de roteiristas, reconhecida mundialmente.