De cierta manera

De cierta manera (Cuba, 1977),  é o único filme da cubana Sara Gómez. Ela morreu durante a montagem do filme, aos 31 anos, vítima de uma crise de asma. A película, filmada em 1971, só foi lançada em 1977, após a participação na montagem de Gutiérrez Alea e Julio García Espinosa. 

O início do filme, em narrativa invertida, transcorre durante um tribunal de trabalhadores que devem julgar um colega que se afastou do trabalho, supostamente para se encontrar com uma mulher. Essa sequência volta no final do filme. 

Entre as sequências do tribunal, conhecemos Yolanda (Yolanda Cuéllar), uma professora idealista que se confronta com a miséria e as dificuldades de alunos “marginais” no Bairro de Miraflores, um dos mais pobres de Havana na época. Ela mantém um relacionamento com Mario (Mario Balmaseda), peça-chave do tribunal, um trabalhador que não encontra seu lugar nestes primeiros anos da revolução cubana. O sonho de Mario é tornar-se membro da sociedade abakua, organização religiosa influenciada pela maçonaria e pela religiosidade yorubá. Só homens podem fazer parte da sociedade, simbolizando o caráter machista de Mario que vai colidir com a politizada e libertária Yolanda.

“O romance entre os dois é uma pequena metáfora da Cuba que se desmonta e precisa se reconstruir após a revolução. A todo tempo o caminhar da narrativa romântica do filme é interrompido pelos excertos documentais, que de início têm enfadonho caráter jornalístico, mas aos poucos vão se convertendo em digressões que dialogam e questionam a trama ficcional (e vice-versa). Uma das melhores sequências do filme, por exemplo, é a cena em que o casal discute enquanto caminha pela Calle 23, e encontra um amigo de Mario; o momento de tensão é interrompido por uma sequência que nos apresenta a peculiar história deste amigo.” – Beatriz Macruz – Site Mulher no cinema

Começo de primavera

O jovem Shoji trabalha no escritório de uma grande empresa. Durante o horário de almoço, combina com os colegas uma caminhada pelo litoral em um domingo de verão. Durante a caminhada, ele e sua colega de trabalho Keiko, se afastam dos demais e começam uma relação mais íntima, convergindo para o romance, concretizado em uma ousada, para a época, sequência em uma pousada, quando os jovens estão conversando vestidos com roupões de banho. 

Mais uma vez, as lentes de Ozu se voltam para a desestruturação familiar no Japão do pós-guerra. Shoji é casado, sua esposa se afasta à medida que percebe a traição. A vida cotidiana desses jovens assalariados, marcada pela monotonia tanto no trabalho como nas relações entre os casais, é retratada com a costumeira linguagem fria, sem melodrama, quase documental do mestre japonês. 

Keiko é julgada e condenada por palavras pelo grupo de amigos, revelando a misoginia milenar da sociedade japonesa. Shoji, ao contrário, deve se acertar com sua mulher e deixar tudo para trás. É um triângulo amoroso complacente e resignado que deve aceitar o destino, melancólico, assim como o próprio Japão pós-guerra.  

Começo de primavera (Soshun, Japão, 1956), de Yasujiro Ozu. Com Chikage Awashima (Masako Sugiyama), Ryô Ikebe (Shôji Sugiyama), Keiko Kishi (Chiyo Kaneko). 

Chocolate

O primeiro filme da prestigiada Claire Denis é uma volta à infância, memórias da época em que viveu com seus pais em uma fazenda em Camarões. No início da película, a jovem Frances está caminhando por uma estrada litorânea. Um homem, acompanhado de seu pequeno filho, oferece carona a ela. Durante o trajeto, ela se depara com paisagens, moradores das cidades, as lembranças. 

Em flashback, a narrativa retoma a infância da menina Frances na fazenda. Seu pai, Marc, vive ausente, pois é responsável pelo gerenciamento da região. Aimée, a mãe, vive reclusa em casa, entregue aos comandos da casa. O personagem motriz da trama é Protée, espécie de mordomo “faz tudo”, inclusive cuidar da menina, com quem desenvolve um relacionamento recíproco de ternura e compreensão.  

A relação colônia/colonizador está expressa nesse pequeno contexto familiar e em situações mais amplas. A relação entre Aimée e Protée é marcada pelo imperativo da patroa branca e a submissão (aparente) do empregado negro. No entanto, o conflito se revela no erotismo sugerido entre os dois, em alguns momentos, quase concretizado. 

Ao mesmo tempo em que lida com questões políticas complexas, como agradar um grupo preconceituoso de turistas e investidores endinheirados, Marc se vê diante do inevitável conflito posto pela sua família (também simbólico no contexto geral): ficar e caminhar para a ruptura ou partir e deixar a África para os africanos. 

Chocolate (Chocolat, França, 1988), de Claire Denis. Com Isaach De Bankolé (Protée), Giulia Boschi (Aimée Dalens), François Cluzet (Marc Dalens), Mireille Perrier (France Dalens). 

Alice nas cidades

O jornalista Philip Winter percorre o interior dos EUA tirando fotos com sua polaroid. Ele está pesquisando para uma reportagem sobre as paisagens e cidades do oeste americano, mas não consegue concluir a matéria. Após conversar com o editor, resolve retornar para a Alemanha. No aeroporto, ajuda a jovem mãe Lisa van Damm a comprar as passagens. Impedidos de voar naquele dia, os três dormem no mesmo quarto de hotel: Philip, Lisa e a menina Alice.  

Em Alice nas cidades, Wim Wenders explora um dos temas recorrentes em sua cinematografia: o road-movie, marcado por personagens solitários que perambulam sem destino. Philip é surpreendido no aeroporto com uma mensagem da mãe de Alice, que resolve não embarcar, confiando a filha ao jornalista. A partir de Amsterdã, os dois empreendem uma viagem de trem, depois de carro, procurando a casa da avó de Alice.

Wim Wenders costuma dizer que não entende como os espectadores assistem a seus filmes, onde praticamente nada acontece. É fácil de responder: basta se deixar levar pela beleza poética das imagens, muitas vezes acompanhadas de longos silêncios, outras demarcadas por uma trilha sonora que atinge o íntimo.

A viagem de Alice e Philipp, o enternecedor relacionamento que se desenvolve à medida que se deparam com a paisagem, as ruas e lanchonetes das cidades; o silêncio entre os dois parece dizer ao espectador: não tente encontrar, apenas caminhe.   

Alice nas cidades (Alice in the cities, Alemanha, 1974), de Wim Wenders. Com Rudiger Vogler (Philip Winter), Yella Rottland (Alice), Lisa Kreuzer (Lisa van Damm). 

Flor do equinócio

Wataru Hirayama é um bem sucedido homem de negócios. Na abertura do filme, em uma cerimônia de casamento, faz um discurso libertário ao elogiar a decisão da noiva em se casar com o jovem que ama, renegando a tradição japonesa do casamento arranjado. Da mesma forma, incentiva sua sobrinha a fazer suas próprias escolhas, não aceitando as imposições da mãe que tenta a todo custo “arrumar” um marido para ela.

No entanto, Hirayama se confronta consigo mesmo quando descobre que sua filha Setsuko está prestes a se casar com um jovem que ela própria escolheu. Hirayama não permite o casamento, revelando sua personalidade contraditória, algo como duas faces.

É o filme mais feminista de Ozu. O patriarca é confrontado pelas três mulheres de sua casa: Setsuko exige que o pai a deixe fazer suas próprias escolhas, é apoiada pela irmã caçula e pela mãe, que com pacata resiliência tenta vencer a recusa do marido. Em uma narrativa paralela, a filha de um amigo de Hirayama foge de casa para morar com seu namorado, pianista de uma boate. 

Flor do equinócio é mais uma bela leitura do tema sagrado do mestre Ozu: as relações familiares, determinadas pelas tradições milenares do país, em conflito com a nova sociedade do pós-guerra. Deixar o passado e saudar o novo está simbolizado na sensível cena de um grupo de patriarcas bebendo à mesa enquanto ouve com melancolia uma antiga canção entoada por um deles. 

Flor do equinócio (Higanbana, Japão, 1958), de Yasujiro Ozu. Com Shin Saburi (Wataru Hirayama), Kinuyo Tanaka (Kyoko Hirayama), Ineko Arima (Setsuko Hirayama), Yoshiko Kuga (Fumiko Mikami).

Cão danado

Em Cão danado, Kurosawa faz uma incursão pelo gênero policial, com referências ao cinema noir. Na abertura do filme, Murakami (Toshiro Mifune), jovem policial do departamento de homicídios, tem seu revólver roubado dentro de um ônibus lotado. Envergonhado, ele entrega seu distintivo ao chefe. O chefe recusa. Murakami então empreende uma busca desesperada pelo submundo de Tóquio em busca do revólver. 

O tom noir é marcante, na fotografia em preto e branco, nas ruelas, becos, bares e prostíbulos que o policial passa a frequentar e, principalmente, na composição das personagens. Em sua busca obsessiva, Murakami se defronta com uma série de marginais do mercado negro, contrabandistas de armas no Japão do pós-guerra que vêem no crime a única alternativa de vida. O olhar de Murakami sobre esses marginais se torna cada vez mais e mais compassivo, mesmo quando vinga o atentado contra seu companheiro de investigação, o policial sente tristeza e resignação diante deste mundo sem esperanças. 

Atenção para a longa sequência silenciosa do policial caminhando pelos bairros decrépitos do mercado negro, afundados no calor e na lama, apinhados de crianças, jovens, adultos e idosos que tentam sobreviver nas ruas. 

Cão danado (Nora inu, Japão, 1949), de Akira Kurosawa. Com Toshiro Mifune, Takashi Shimura, Keiko Awaji.

Madadayo

O último filme de Kurosawa pode ser visto como um olhar do diretor sobre a finitude de sua própria vida. Hyakken Uchida (Tatsuo Matsumura) é um professor que se aposenta no início da década de 40 para se dedicar à literatura. Ele aluga uma bela casa que logo é bombardeada, durante a segunda guerra mundial. Sem recursos, se muda para um casebre de um único ambiente, onde passa a viver com sua mulher. Seus ex-alunos o visitam com frequência, reverenciam o professor com paixão e entusiasmo. Anualmente, os ex-alunos promovem encontros, primeiro na casa do professor, depois em salões de festas, regados a bebidas, cantoria e dança. 

Madadayo é um grito entoado pelo professor em cada encontro, cujo significado remete a “ainda não”, um manifesto contra a morte que se aproxima ano a ano. O filme entrelaça um tom de comédia e dramaticidade. O final sensível e terno, resgata a palavra Madadayo da infância do professor, quando a vida no Japão era um idílio de brincadeiras infantis, o contraste cruel com a velhice vivida durante e no pós-guerra. 

Madadayo (Japão, 1993), de Akira Kurosawa. Com Tatsuo Matsumura, Hisashi Igawa, George Tokoro, Masayuki Yui. 

Please baby, please

É ótimo encontrar filmes contemporâneos nos quais a estética noir ainda provoca forte influência. O grande trunfo de Please baby, please é o visual extravagante, pontuado por números musicais também estranhos e por fortes doses de violência e erotismo. 

No início da trama, o casal formado por Suze e Arthur presencia uma gangue gótica assassinando um homem a pontapés no beco da cidade. Os dois passam a ser chantageados pela gangue, mas entre os riscos de violência e morte, desenvolvem um complexo fascínio: Suze fica cada vez mais obcecada pelo visual e estilo da gangue; Harry se entrega ao desejo por Teddy, um dos integrantes. 

O roteiro não traz atrativos, muito menos surpresas. O destaque fica por conta da estética, da participação especial de Demi Moore e da interpretação caricata de Andrea Riseborough (indicada ao Oscar em 2022 por To Leslie).  

Please baby, please (EUA, 2022), de Amanda Kramer. Com Andrea Riseborough (Suze), Harry Melling (Arthur), Demi Moore (Maureen), Karl Glusman (Teddy), Ryan Simpkins (Dickie), Cole Escola (Billy). 

A praga

José Mojica Marins, o Zé do Caixão, filmou A praga em 1980, mas não terminou o filme. Era o início de uma década praticamente perdida para o cinema brasileiro, quando muitos cineastas, sem condições de financiamento, incerraram a carreira. 

Em 2007, foram encontrados rolos de filmes super-8 com o material bruto de A praga. O material foi digitalizado, cenas adicionais foram gravadas, mas novamente tudo foi arquivado. Finalmente, em 2021 o filme passou pelo processo de restauração em alta resolução, com tratamento de som e imagem. 

A narrativa é simples e provocativa: um fotógrafo é alvo de uma praga de uma senhora durante um final de semana, quando tenta tirar fotos dela em seu sítio. A bruxa passa a atormentar o fotógrafo de forma escabrosa, torturando-o com visões macabras que o fazem consumir carne crua por uma chaga aberta no ventre. 

O próprio José Mojica Marins narra a história, pontuada por suas aparições também tenebrosas. A praga é o único filme inédito do cultuado mestre do terror brasileiro. 

A praga (Brasil, 1980/2023), de José Mojica Marins. Com Felipe Von Reno, Wanda Kosmo, Sílvia Gless. 

Aos nossos filhos

Vera coordena uma ONG que acolhe e encaminha para adoção crianças de uma comunidade carioca, inclusive crianças soropositivas. Sua filha Tânia e a namorada, Vanessa, tentam ter um filho através de inseminação artificial. O passado de Vera nas prisões da ditadura militar, quando foi torturada, vem à tona quando ela é entrevistada por Sérgio, um jovem que está escrevendo um livro sobre sua mãe, companheira de cela de Vera. 

A trama desenvolve dois núcleos fortes: a relação conflituosa entre Tânia e Vera, angustiada e incerta diante do desgastante processo de inseminação; e as lembranças dolorosas de Vera no submundo dos porões militares. Destaque para a sequência do cemitério, quando Vera se vê finalmente diante de seu maior tormento, revelador da cruel e desumana prática de tortura no Brasil dos generais, que muitos ainda insistem em negar. Outros, também criminosos, prestam homenagens oficiais a torturadores. 

Aos nossos filhos (Brasil, 2019), de Maria de Medeiros. Com Marieta Severo (Vera), Laura Castro (Tânia), Cláudio Lins (Sérgio), José de Abreu (Fernando), Marta Nobrega (Vanessa).