O caminho da tentação

John Forbes vive uma tranquila vida de casado. É corretor de seguros de uma grande empresa, sua rotina se divide entre casa e trabalho, deixando transparecer o tédio que sente no dia-a-dia. Ele se vê envolvido em um caso de fraude à segurada, quando o responsável, Smiley, é preso. John Forbes precisa recuperar os bens que foram doados por Smiley à sua namorada, Mona Stevens.

Esse encontro encaminha a trama para a tradicional entrada em cena da femme fatale, marca registrada dos filmes noir. No entanto, a grande vítima da narrativa acaba sendo Mona. John Forbes se apaixona por ela, os dois começam um perigoso caso extraconjugal, pois MacDonald, um investigador particular que trabalha para a corretora, também está apaixonado por Mona. Ele usa de todos os meios para conquistá-la, incluindo chantagem, armando uma complexa armadilha para Forbes no final do filme.  

O final, triste e doloroso, revela como homens cruéis, MacDonald, e os pretensamente íntegros, Forbes, podem destruir a vida das mulheres com quem se relacionam. 

O caminho da tentação (Pitfall, EUA, 1948), de André De Toth. Com Dick Powell (John Forbes), Lizabeth Scott (Mona Stevens), Raymond Burr (MacDonald). 

No silêncio da noite

Nas primeiras sequências do filme, o roteirista Dix Steele está em um bar. Ele conhece uma jovem e a convida para sua casa. Os dois ficam juntos até o início da madrugada. Dix leva a jovem até o jardim, nesse momento Laurel Gray, sua vizinha do condomínio, passa por eles. Dix se despede da jovem e observa Laurel entrando em casa. Corta para a manhã seguinte. Dois policiais batem na porta do roteirista. A jovem com quem ele se encontrara na noite anterior foi assassinada na madrugada. Durante o depoimento na delegacia, Dix descobre que é o suspeito número 1 do crime. 

No silêncio da noite é considerado a obra-prima do aclamado diretor Nicholas Ray. É um noir tenso e amargo, com interpretações primorosas de Gloria Grahame e Humphrey Bogart. É também um dos grandes filmes feitos sobre o próprio cinema, retratando a era de ouro de Hollywood, revelando como o sistema de estúdio forçava seus criativos a trabalhar com as regras impostas para que os filmes tivessem apelo comercial. Dix está trabalhando em uma adaptação literária, mas não pode escrever o filme que deseja artisticamente. 

O grande destaque deste noir repleto de diálogos cortantes, prestem atenção nos depoimentos de Dix Steele e Laurel Gray na delegacia, é a complexidade psicológica que se instaura entre o casal de protagonistas.

“Dix Steele (Bogart), um roteirista de pavio-curto, é suspeito de um assassanto especialmente cruel, porém sua vizinha de porta, Laurel Gray (Grahame), pode lhe servir de álibi. Isso leva a dupla a um caso passional que é minado quando Laurel se apavora com as tendências violentas de Dix e começa a se perguntar se ele não teria cometido de fato o assassinato. Depois de anos interpretando sujeitos durões, porém românticos, aqui Bogart mergulha mais fundo na sua própria persona, revelando um viés neurótico que poderia ter feito Sam Spade ou Rick Blaine personagens instáveis e absolutamente assustadores nas sequências em que Dix explode, aplicando surras em quem merece e em quem não merece.”

O início do filme deixa claro para o espectador que Dix não é o assassino. No entanto, até mesmo esse espectador se vê em dúvida durante a narrativa. O crescente descontrole do personagem assusta a todos, principalmente a Laurel Gray. Os dois estão apaixonados, mas Dix se mostra cada vez mais violento, colocando na cabeça de Laurel, que depôs na delegacia sobre a sua inocência, a dúvida, o medo. 

O filme tem uma sequência antológica, quando a mente criativa, talvez doentia, do Dix roteirista, acostumado a criar cenas de assassinato em seus filmes, se revela. Em frente a um dos policiais, seu amigo, e da mulher dele, Dix reencena como teria acontecido o assassinato dentro do carro, chegando a simular o estrangulamento no pescoço da esposa do policial. Puro terror psicológico. 

No silêncio da noite (In a lonely place, EUA, 1950), de Nicholas Ray. Com Humphrey Bogart (Dix Steele), Gloria Grahame (Laurel Gray), Frank Lovejoy.

Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.

O bígamo

O filme abre com o casal Harry Graham e Eve em uma entrevista para adoção de uma criança. Estão na faixa dos quarenta anos, são profissionais de sucesso e a adoção é o sonho da esposa. Harry reluta, mostra-se apreensivo, reticente, Edmund Gwenn, o entrevistador remarca a entrevista e, perspicaz como um detetive, passa a investigar Harry. A descoberta não tarda a acontecer. Harry viaja muito a trabalho e, certo dia, ao abrir a porta de sua outra residência, se depara com Edmund. O som de uma criança recém nascida ressoa ao fundo e Phyllis entra em cena. 

O título já revela ao espectador o tema da trama, portanto, não é surpresa a descoberta. A partir desse momento, O bígamo se transforma em um profundo estudo de personagens. Em flash back, Harry conta como conheceu Phyllis e a engravidou. Narrativa paralela revela o crescente distanciamento que vive com a esposa original, motivado, em grande parte, pelos anos de casamento, pela dedicação à vida profissional, a rotina e o tempo que transformam inúmeros casais em apenas amigos. 

O trunfo do filme é a dissecação dolorosa das escolhas de Harry, sua paixão por Phyllis, seu respeito pelo longo casamento, um remorso lento e diário que corrói sua integridade. Ida Lupino não escolhe julgar Harry, nem suas esposas, coloca em pauta a complexidade da alma humana, os erros inerentes à condição de existir, de se entregar a momentos ternos como a troca de um olhar em um parque. Espero que, nem mesmo o espectador, se sinta capaz de julgar nem um dos personagens. 

O bígamo (The bigamist, EUA, 1953), de Ida Lupino. Com Joan Fontaine (Eva Graham), Ida Lupino (Phyllis Martin), Edmond O’Brien (Harry Graham), Edmund Gwenn (Sr. Jordan). 

Mãe solteira

Sally, uma jovem e ingênua garçonete, se apaixona pelo pianista que toca onde ela trabalha. O caso resulta em uma gravidez, mas o pianista muda de cidade, em busca do seu sonho de ser compositor. A jovem vai à sua procura, mas é renegada e abandonada. Desesperada, sua decisão é se internar em uma instituição que cuida de jovens solteiras grávidas e buscam pais adotivos para as crianças. 

Mãe solteira é o primeiro filme dirigido pela consagrada Ida Lupino. Ela assumiu o filme durante as filmagens, substituindo Elmer Clifton, que sofreu um ataque cardíaco. Lupino tinha 31 anos e foi responsável pelo roteiro do filme, além de atuar como co-produtora.  

Lupino impôs um olhar feminino ao drama de Sally, sofrendo com o abandono e as angústias quase insuportáveis da sua decisão de ceder o filho para adoção. Uma característica marcante de Mãe solteira, fruto da experiência da diretora como atriz no cinema clássico americano, é a narrativa visual, com momentos dramáticos transmitidos por planos longos e pela montagem com cortes secos e precisos.  

Mãe solteira (Not wanted, EUA, 1949), de Ida Lupino e Elmer Clifton. Com Sally Forrest (Sally Kelton), Keefe Brasselle (Drew Baxter), Leo Penn (Steve Ryan).

Johnny Gunman

Muito anos de O poderoso chefão (1972), Johnny Gunman traz a história de dois gângsteres que disputam o controle da máfia em Nova York. Vicious Allie e Johnny Gunman são amigos desde a infância. Ambos trabalham para o chefão Loy Caddy, que é preso por sonegação de impostos. Os dois amigos começam então uma disputa pelo controle exclusivo da máfia, ao invés de dividirem territórios. 

A narrativa se passa ao longo de uma noite e traz os elementos característicos dos filmes noir: ambientação noturna nas ruas e em bares e apartamentos; diálogos rápidos e cortantes;  a femme fatale que instiga seu amante ao confronto; o belíssimo contraste de sombras e luzes e, claro, a violência latente em pontos certeiros da trama. Um filme de baixo orçamento, bem ao estilo dos filmes B americanos que foram consagrados pelas críticos da Cahiers do Cinema e se transformaram em cults. 

Johnny Gunman (EUA, 1957), de Art Ford. Com Martin E. Brooks (Johnny G.), Johnny Seven (Allie), Carrie Radisson (Mimi), Nick Rossi (Lou Caddy). 

Human flow: não existe lar se não há para onde ir

O premiado artista chinês Ai Weiwei  compôs um painel impactante e doloroso sobre a situação de refugiados espalhados pelo mundo. Durante um ano, o diretor e sua equipe filmaram o cotidiano de 40 campos de refugiados, em 23 países, entre eles: Líbano, Quênia, Bangladesh, a fronteira entre o México e os Estados Unidos.

“Não é apenas um problema político, mas uma questão humanitária e moral”, afirmou o diretor. As imagens do documentário, com uma edição primorosa, retratam o lado humano dos refugiados: o cuidado que eles têm uns com os outros, a luta pela sobrevivência em situações muitas vezes precárias, o sofrimento pela indefinição das condições dos refugiados de apátridas.

As imagens são acompanhadas de informações de estarrecer, por exemplo, só no Iraque, quatros milhões de pessoas já abandonaram suas casas desde os anos 80; 56 mil refugiados sírios, iraquianos e iranianos cruzam a Grécia toda semana. O documentário é muito mais do que uma denúncia, é uma potente declaração humanitária que deveria ecoar fundo nas nações que fecham os olhos diante dessa escravidão moderna. 

Human flow: não existe lar se não há para onde ir (Human flow, Alemanha/EUA, 2017), de Ai Weiwei.

Foro íntimo

O diretor Ricardo Mehedff inspirou-se em fatos reais para compor um retrato claustrofóbico da justiça brasileira. O Juiz Gustavo Ferreira está  trancafiado no Fórum de Belo Horizonte, protegido por agentes de segurança. Sua esposa e filho se mudaram para Buenos Aires. O juiz é o responsável por um caso judicial que envolve um senador da república. Por questões de segurança, a escolta policial do juiz não deixa que ele saia do Fórum e controla até mesmo os casos que ele vai analisar em seus dias de trabalho. 

O suspense da trama se evidencia em detalhes como o apagar de luzes dos ambientes, passos que se escutam, o bater de portas, um cruzamento de olhares nos corredores do tribunal. O ponto forte do filme é a claustrofobia que transparece no juiz, sentenciado à reclusão, dormindo, comendo, vivendo em seu minúsculo gabinete. As opções estéticas e de linguagem durante a trama evidenciam o medo e o desespero do juiz ao se sentir como muitos daqueles que cumprem penas em prisões, após serem julgados por ele. 

Foro íntimo (Brasil, 2017), de Ricardo Mehedff. Com Gustavo Werneck (Juiz Gustavo Ferreira), Jefferson da Fonseca (Agente Fontes), Beatriz França (Bia), Léo Quintão (Promotor Donato).

Esse obscuro objeto do desejo

O último filme de Luis Buñuel é uma perturbadora incursão pelos desejos carnais humanos. Mathieu, um francês rico de meia-idade, representante da rígida sociedade patriarcal e do conservadorismo masculino, se apaixona por sua camareira de 19 anos. Conchita toma as rédeas do relacionamento, manipulando o amante, praticando um subversivo jogo sexual em benefício de seus interesses. 

O próprio Mathieu conta a história de seu relacionamento com Conchita, durante uma viagem de trem, a dois passageiros, que se sentem mais e mais intrigados pelo desfecho do caso amoroso, marcado por sexo, agressões e provocações mútuas. O filme inclui uma ousada experimentação de Luís Buñuel: Conchita é interpretada por duas atrizes, uma loira, a outra morena, dubladas pela mesma voz, confundindo o espectador. 

“Foi provavelmente em seu último filme, Esse obscuro objeto do desejo, feito em 1977, que ele (Buñuel) conseguiu sua mais assombrosa façanha de prestidigitação. Enquanto escrevíamos o roteiro, consideramos a hipótese de dar o papel da jovem ardilosa (Conchita) a duas atrizes diferentes, alternadamente, sem aviso, sem comunicação e sem dar importância ao fato. Sentíamos que certas cenas se adaptavam melhor a uma mulher elegante e um tanto distante, enquanto outras pareciam ter sido escritas para uma atriz menos sofisticada, mais franca – e capaz de dançar o flamenco.” – Jean-Claude Carríére

A estratégia narrativa faz com o que o espectador não perceba a alternância das atrizes, pois elas trocam de papéis até mesmo durante uma caminhada pelas ruas, a continuidade discursiva manipulando o espectador: em determinada cena, Mathieu e Conchita-loira estão entrando pela porta da casa, do lado de dentro a Conchita-morena assume a sequência. 

Em outro momento, quando Conchita parece que vai se entregar a Mathieu, as duas atrizes alternam entre a entrada e a saída do banheiro, quando Conchita se prepara para o ato.  

“Nessa sequência, percebe-se a função específica de cada uma das atrizes – divisão de personalidade de uma única mulher entre seu lado mais ardente e seu lado mais frio. Angela Molina interpreta, na maioria das vezes, os momentos mais ousados de Conchita – como no apartamento, quando se despe em frente a Mathieu, ou quando dança flamenco nua para os japoneses, ou faz amor com El Morenito. Carole Bouquet interpreta os momentos em que Conchita se faz de distante e o repudia – embora ambas Conchitas (loira ou morena) sejam igualmente cruéis e sádicas com Mathieu.” – Erika Savernini

Esse obscuro objeto do desejo (Cet obscur objet du désir, França/Espanha, 1977), de Luis Buñuel. Com Fernando Rey (Mathieu Faber), Carole Bouquet (Conchita), Ângela Molina (Conchita).

 Referência: Índices de um cinema de poesia. Pier Paolo Pasolini, Luis Buñuel e Krzysztof Kieslowski. Erika Savernini. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004

Enter The Void: Viagem alucinante

Gaspar Noé faz uma alucinante incursão pelo mundo metafísico, abordando a pós-morte e a encarnação. Oscar é um jovem traficante de drogas que vive em Tóquio, junto com sua irmã Linda, streaper de uma boate. Seus melhores amigos são Victor e Alex – que lhe apresenta um livro tibetano sobre experiências espirituais após a morte. 

Oscar vai a um clube noturno, The Void, entregar drogas a Victor, mas é traído pelo amigo: a polícia o espera para prendê-lo em flagrante. Refugiando-se no banheiro, Oscar é alvejado pelos policiais. 

O ponto de vista em primeira pessoa é o trunfo da película. A cãmera segue o olhar de Oscar pelo submundo da Tóquio noturna, regada a sexo, bebidas e drogas, esteticamente marcada pelas infindáveis luzes estroboscópicas, o neon agressivo da cidade. 

Após a morte, o espírito de Oscar vagueia pela cidade em longos planos gerais, a famosa câmera fantasma dos primórdios do cinema. O espírito espreita, entra na intimidade de seus entes queridos, sem julgamentos, apenas um observador atento à procura de seu destino. 

Enter The Void: Viagem alucinante (França, 2009), de Gaspar Noé. Com Nathaniel Brown (Oscar), Paz de la Huerta (Linda), Cyril Roy (Alex), Olly Alexander (Victor), Masato Tanno (Mario). 

Clímax

Lettering avisa, na abertura, que a trama é inspirada em fatos reais. Logo após, uma série de imagens em planos fechados apresentam ao público vinte personagens, dançarinos, que vão se reunir em um internato no meio da floresta gelada, para um ensaio de três dias. 

Corta para o galpão onde acontecem os ensaios. Após um dos ensaios, acontece uma festa regada a bebidas e drogas. Passo a passo, os dançarinos se comportam de forma alucinada, agressiva, cada um revelando desejos e instintos incontroláveis. Aparentemente, alguém colocou um tipo de droga na bebida servida na festa. 

O polêmico e ousado diretor Gaspar Noé usa desse ato comum, no Brasil conhecido como “Boa noite Cinderela”, para compor um retrato insano, agressivo, erótico, quase repulsivo, desse grupo de jovens enclausurados. A montagem do filme usa de tomadas longas, planos-sequências, travellings desordenados. 

Em Clímax, Gaspar Noé não precisou recorrer a um dos seus elementos fílmicos favoritos: filmagem de cenas de sexo explícitas. A insanidade que toma conta dos dançarinos e a própria insanidade da linguagem bastam para provocar o espectador.  

Climax (França, 2018), de Gaspar Noé.