Alice nas cidades

O jornalista Philip Winter percorre o interior dos EUA tirando fotos com sua polaroid. Ele está pesquisando para uma reportagem sobre as paisagens e cidades do oeste americano, mas não consegue concluir a matéria. Após conversar com o editor, resolve retornar para a Alemanha. No aeroporto, ajuda a jovem mãe Lisa van Damm a comprar as passagens. Impedidos de voar naquele dia, os três dormem no mesmo quarto de hotel: Philip, Lisa e a menina Alice.  

Em Alice nas cidades, Wim Wenders explora um dos temas recorrentes em sua cinematografia: o road-movie, marcado por personagens solitários que perambulam sem destino. Philip é surpreendido no aeroporto com uma mensagem da mãe de Alice, que resolve não embarcar, confiando a filha ao jornalista. A partir de Amsterdã, os dois empreendem uma viagem de trem, depois de carro, procurando a casa da avó de Alice.

Wim Wenders costuma dizer que não entende como os espectadores assistem a seus filmes, onde praticamente nada acontece. É fácil de responder: basta se deixar levar pela beleza poética das imagens, muitas vezes acompanhadas de longos silêncios, outras demarcadas por uma trilha sonora que atinge o íntimo.

A viagem de Alice e Philipp, o enternecedor relacionamento que se desenvolve à medida que se deparam com a paisagem, as ruas e lanchonetes das cidades; o silêncio entre os dois parece dizer ao espectador: não tente encontrar, apenas caminhe.   

Alice nas cidades (Alice in the cities, Alemanha, 1974), de Wim Wenders. Com Rudiger Vogler (Philip Winter), Yella Rottland (Alice), Lisa Kreuzer (Lisa van Damm). 

Flor do equinócio

Wataru Hirayama é um bem sucedido homem de negócios. Na abertura do filme, em uma cerimônia de casamento, faz um discurso libertário ao elogiar a decisão da noiva em se casar com o jovem que ama, renegando a tradição japonesa do casamento arranjado. Da mesma forma, incentiva sua sobrinha a fazer suas próprias escolhas, não aceitando as imposições da mãe que tenta a todo custo “arrumar” um marido para ela.

No entanto, Hirayama se confronta consigo mesmo quando descobre que sua filha Setsuko está prestes a se casar com um jovem que ela própria escolheu. Hirayama não permite o casamento, revelando sua personalidade contraditória, algo como duas faces.

É o filme mais feminista de Ozu. O patriarca é confrontado pelas três mulheres de sua casa: Setsuko exige que o pai a deixe fazer suas próprias escolhas, é apoiada pela irmã caçula e pela mãe, que com pacata resiliência tenta vencer a recusa do marido. Em uma narrativa paralela, a filha de um amigo de Hirayama foge de casa para morar com seu namorado, pianista de uma boate. 

Flor do equinócio é mais uma bela leitura do tema sagrado do mestre Ozu: as relações familiares, determinadas pelas tradições milenares do país, em conflito com a nova sociedade do pós-guerra. Deixar o passado e saudar o novo está simbolizado na sensível cena de um grupo de patriarcas bebendo à mesa enquanto ouve com melancolia uma antiga canção entoada por um deles. 

Flor do equinócio (Higanbana, Japão, 1958), de Yasujiro Ozu. Com Shin Saburi (Wataru Hirayama), Kinuyo Tanaka (Kyoko Hirayama), Ineko Arima (Setsuko Hirayama), Yoshiko Kuga (Fumiko Mikami).

Cão danado

Em Cão danado, Kurosawa faz uma incursão pelo gênero policial, com referências ao cinema noir. Na abertura do filme, Murakami (Toshiro Mifune), jovem policial do departamento de homicídios, tem seu revólver roubado dentro de um ônibus lotado. Envergonhado, ele entrega seu distintivo ao chefe. O chefe recusa. Murakami então empreende uma busca desesperada pelo submundo de Tóquio em busca do revólver. 

O tom noir é marcante, na fotografia em preto e branco, nas ruelas, becos, bares e prostíbulos que o policial passa a frequentar e, principalmente, na composição das personagens. Em sua busca obsessiva, Murakami se defronta com uma série de marginais do mercado negro, contrabandistas de armas no Japão do pós-guerra que vêem no crime a única alternativa de vida. O olhar de Murakami sobre esses marginais se torna cada vez mais e mais compassivo, mesmo quando vinga o atentado contra seu companheiro de investigação, o policial sente tristeza e resignação diante deste mundo sem esperanças. 

Atenção para a longa sequência silenciosa do policial caminhando pelos bairros decrépitos do mercado negro, afundados no calor e na lama, apinhados de crianças, jovens, adultos e idosos que tentam sobreviver nas ruas. 

Cão danado (Nora inu, Japão, 1949), de Akira Kurosawa. Com Toshiro Mifune, Takashi Shimura, Keiko Awaji.

Madadayo

O último filme de Kurosawa pode ser visto como um olhar do diretor sobre a finitude de sua própria vida. Hyakken Uchida (Tatsuo Matsumura) é um professor que se aposenta no início da década de 40 para se dedicar à literatura. Ele aluga uma bela casa que logo é bombardeada, durante a segunda guerra mundial. Sem recursos, se muda para um casebre de um único ambiente, onde passa a viver com sua mulher. Seus ex-alunos o visitam com frequência, reverenciam o professor com paixão e entusiasmo. Anualmente, os ex-alunos promovem encontros, primeiro na casa do professor, depois em salões de festas, regados a bebidas, cantoria e dança. 

Madadayo é um grito entoado pelo professor em cada encontro, cujo significado remete a “ainda não”, um manifesto contra a morte que se aproxima ano a ano. O filme entrelaça um tom de comédia e dramaticidade. O final sensível e terno, resgata a palavra Madadayo da infância do professor, quando a vida no Japão era um idílio de brincadeiras infantis, o contraste cruel com a velhice vivida durante e no pós-guerra. 

Madadayo (Japão, 1993), de Akira Kurosawa. Com Tatsuo Matsumura, Hisashi Igawa, George Tokoro, Masayuki Yui. 

Please baby, please

É ótimo encontrar filmes contemporâneos nos quais a estética noir ainda provoca forte influência. O grande trunfo de Please baby, please é o visual extravagante, pontuado por números musicais também estranhos e por fortes doses de violência e erotismo. 

No início da trama, o casal formado por Suze e Arthur presencia uma gangue gótica assassinando um homem a pontapés no beco da cidade. Os dois passam a ser chantageados pela gangue, mas entre os riscos de violência e morte, desenvolvem um complexo fascínio: Suze fica cada vez mais obcecada pelo visual e estilo da gangue; Harry se entrega ao desejo por Teddy, um dos integrantes. 

O roteiro não traz atrativos, muito menos surpresas. O destaque fica por conta da estética, da participação especial de Demi Moore e da interpretação caricata de Andrea Riseborough (indicada ao Oscar em 2022 por To Leslie).  

Please baby, please (EUA, 2022), de Amanda Kramer. Com Andrea Riseborough (Suze), Harry Melling (Arthur), Demi Moore (Maureen), Karl Glusman (Teddy), Ryan Simpkins (Dickie), Cole Escola (Billy). 

A praga

José Mojica Marins, o Zé do Caixão, filmou A praga em 1980, mas não terminou o filme. Era o início de uma década praticamente perdida para o cinema brasileiro, quando muitos cineastas, sem condições de financiamento, incerraram a carreira. 

Em 2007, foram encontrados rolos de filmes super-8 com o material bruto de A praga. O material foi digitalizado, cenas adicionais foram gravadas, mas novamente tudo foi arquivado. Finalmente, em 2021 o filme passou pelo processo de restauração em alta resolução, com tratamento de som e imagem. 

A narrativa é simples e provocativa: um fotógrafo é alvo de uma praga de uma senhora durante um final de semana, quando tenta tirar fotos dela em seu sítio. A bruxa passa a atormentar o fotógrafo de forma escabrosa, torturando-o com visões macabras que o fazem consumir carne crua por uma chaga aberta no ventre. 

O próprio José Mojica Marins narra a história, pontuada por suas aparições também tenebrosas. A praga é o único filme inédito do cultuado mestre do terror brasileiro. 

A praga (Brasil, 1980/2023), de José Mojica Marins. Com Felipe Von Reno, Wanda Kosmo, Sílvia Gless. 

Aos nossos filhos

Vera coordena uma ONG que acolhe e encaminha para adoção crianças de uma comunidade carioca, inclusive crianças soropositivas. Sua filha Tânia e a namorada, Vanessa, tentam ter um filho através de inseminação artificial. O passado de Vera nas prisões da ditadura militar, quando foi torturada, vem à tona quando ela é entrevistada por Sérgio, um jovem que está escrevendo um livro sobre sua mãe, companheira de cela de Vera. 

A trama desenvolve dois núcleos fortes: a relação conflituosa entre Tânia e Vera, angustiada e incerta diante do desgastante processo de inseminação; e as lembranças dolorosas de Vera no submundo dos porões militares. Destaque para a sequência do cemitério, quando Vera se vê finalmente diante de seu maior tormento, revelador da cruel e desumana prática de tortura no Brasil dos generais, que muitos ainda insistem em negar. Outros, também criminosos, prestam homenagens oficiais a torturadores. 

Aos nossos filhos (Brasil, 2019), de Maria de Medeiros. Com Marieta Severo (Vera), Laura Castro (Tânia), Cláudio Lins (Sérgio), José de Abreu (Fernando), Marta Nobrega (Vanessa).  

Pérola

Depois de O beijo no asfalto, O ator/diretor Murilo Benício se debruça mais uma vez sobre uma peça teatral em sua segunda direção cinematográfica. Pérola é baseado na obra de Mauro Rasi que transpôs para os palcos as memórias de suas relações familiares em Bauru, centradas na personalidade forte, divertida e briguenta de sua mãe. 

O filme alterna momentos de pura comédia, retratando o cotidiano dessa família de classe média dos anos 70 aos 90, lideradas por Pérola, cujo sonho é ter uma piscina em sua casa. Entre caipirinhas, caipivodkas e diversos outros drinks, a família se diverte e briga. O olhar de Mauro em sua família é carregado de ternura e, muitas vezes, agressividade, pois suas escolhas profissionais no mundo da escrita são combatidas com veemência pela mãe. 

O filme, claro, é de Drica Moraes. Mas uma vez a atriz destila talento em um papel carregado de irreverência, humor e melodrama. O final é enternecedor, nos faz lembrar com saudades dos bons momentos em família (sem o excesso de caipirinha, claro). 

Pérola (Brasil, 2023), de Murilo Benício. Com Drica Moraes (Pérola), Leonardo Fernandes (Mauro), Cláudia Missura (Tia Norma), Rodolfo Vaz (Vado). 

Jaime

Jaime (Bélgica, 2022), de Francisco Javier Rodriguez. 

Jaime é um homem de 31, 32 anos (ele alterna sua idade) que passou grande parte da vida em uma instituição psiquiátrica, após incendiar a própria casa. Ele despeja para a câmera, em uma conversa presumivelmente com um entrevistador, seus pensamentos e desejos confusos, versando sobre Deus, a mãe que o espancava quando criança, os cachorros, super poderes que possui…

O premiado média-metragem de Francisco Javier Rodriguez é um retrato inquietante da mente do protagonista que transita indistintamente entre imaginação e realidade, entre falas e pensamentos que se concretizam para o espectador. Com um soberba atuação de Guy Dessent, o inesperado final confunde mais ainda o espectador, abrindo as brechas para as surpreendentes revelações da mente humana. 

Holy spider

Holy spider (Dinamarca/Alemanha, 2022), de Ali Abbasi.

O filme tem um dos finais mais perturbadores do cinema contemporâneo, de revirar a mente e acreditar de forma decisiva que o fanatismo religioso é um dos grandes males da humanidade. A jornalista Rahimi (Zar Amir Egrahimi) chega à cidade sagrada de Mexede, no Irã, para fazer uma reportagem sobre o “Assassino de Aranhas”, um homem que se julga justiceiro de Deus e mata prostitutas. 

Não há mistério sobre a identidade do assassino, é Saeed (Mehdi Bajestani), um pai de família amoroso, ensina os preceitos religiosos aos filhos, trata a mulher com respeito e carinho. Baseado em fatos reais, a virada da narrativa acontece quando o assassino é preso, vai a julgamento e ganha apoio de centenas de fanáticos nas ruas da cidade. 

Prepare-se para cenas fortes de assassinatos, o diretor Ali Abbasi não poupa o espectador neste filme denúncia contundente. Zar Amir Egrahimi ganhou o prêmio de Melhor Atriz em Cannes por sua atuação como a jornalista investigativa que arrisca a própria vida em busca da verdade e da justiça.