Caçador de morte

Caçador de morte é um dos influentes filmes de perseguição de carros que marcou o cinema dos anos 60/70, assim como Bullitt (1968) e Operação França (1971). Ryan O’Neal interpreta um exímio motorista, que aluga caro seu talento para assaltantes de bancos. Durante um assalto mal-sucedido, ele é visto pela personagem de Isabelle Adjani. O detetive (Bruce Dern) tenta convencê-la a depor e acusar o Driver, mas ela se recusa. 

O filme foi um fracasso de público e crítica nos anos 70, mas acabou se transformando em cult, influenciando filmes modernos como Drive (2011) e em Ritmo de fuga (2017). A narrativa é marcada por um relacionamento intenso entre o casal de protagonistas e o tradicional jogo de gato e rato entre detetive e bandido. Claro, o destaque fica para as estonteantes perseguições de carro nas ruas da cidade. 

Caçador de morte (The driver, EUA, 1978), de Walter Hill. Com Ryan O”Neal, Bruce Dern e Isabelle Adjani. 

Between two dawns

Between two dawns, primeiro filme de Selman Nacar, parte de um acidente rotineiro e trágico: um trabalhador é gravemente ferido ao tentar consertar uma máquina na tecelagem onde trabalha, um negócio administrado pelos irmãos Kadir e Serpil. 

Kadir, o irmão mais jovem, assume a tarefa de dar assistência ao ferido no hospital. Quando conhece a esposa do trabalhador, começa um forte dilema moral, o conflito entre os interesses da família e seus valores pessoais. A narrativa acontece em apenas dois dias, filmada nos ambientes urbanos, centrada na jornada de Kadir e em sua inerente transformação. A realista e cotidiana jornada do herói que pode acontecer com cada um de nós, basta um incidente ao sairmos de casa. 

Between two dawns (Iki Safak Arasinda, Turquia, 2021), de Selman Nacar. Com Mucahit Kocak (Kadir), Nezaket Erden (Serpil), Unal Silver (İbrahim), Bedir Bedir (Halil), Burcu Gölgedar (Esma), Erdem Şenocak (Yasin).

Anjos rebeldes

As adolescente Mary e Rachel se conhecem em um trem repleto de jovens a caminho de um colégio interno administrado por freiras. A amizade começa e segue no colégio marcada por atos rebeldes, principalmente contra a Madre Superiora, pois enxergam nela a mentora das rígidas convenções que cercam as internas. 

A comédia de Ida Lupino traz um tema caro ao cinema: o rito de passagem da adolescência para a vida adulta. A bela amizade entre Mary e Rachel vai se confrontar com as escolhas inerentes ao amadurecimento, ao descobrimento de sentimentos ocultos, que se afloram em gestos simples, como se doar ao outro. Rosalind Russell cativa e comove como a rígida Madre Superiora que enternece a todos à medida que revela sua face doce e amorosa.

Anjos rebeldes (The trouble with angels, EUA, 1966), de Ida Lupino. Com Rosalind Russell (Madre Superiora), Hayley Mills (Mary) , June Harding (Rachel).

Alemanha no outono

Em 1977, a Alemanha foi abalada por uma série de acontecimentos políticos de caráter violento, extremista: o sequestro e assassinato de Hann-Martin Schleyer, presidente da Confederação de Empregadores da Alemanha Ocidentel; o sequestro do avião da Lufthansa; o suicídio na prisão de três membros da RAF – Fração do Exército Vermelho. 

Em Alemanha no outono, onze aclamados cineastas, integrantes do Novo Cinema Alemão, se debruçaram sobre o clima terrorista que se instaurou no país, debatendo as questões da extrema direita e da extrema esquerda. O filme foi realizado em estilo episódico, curtas-metragens ligados pelo tema comum que ficou conhecido como Outono alemão. Destaque para o primeiro episódio, escrito, dirigido e interpretado por Rainer Werner Fassbinder, no qual ele se expõe de forma visceral, desnudando-se diante da câmera física e ideologicamente.

“Quando nos reunimos, no início, um dos motivos que nos levaram a concluir pela necessidade de fazer o filme era enfrentar o medo. Era necessário que as pessoas que não tinham nenhum meio de produção e estavam, talvez, ainda mais amedrontadas do que nós, não se deixassem intimidar pelo sentimento que reinava então na Alemanha, de que a crítica era inoportuna em qualquer de suas manifestações e deveria ser calada.” – Fassbinder (Plano Critico)

Alemanha no outono (Deutschland im herbst, Alemanha, 1978), de Rainer Werner Fassbinder, Alf Brustellin, Alexander Kluge, Maximiliane Mainka, Beate Mainka-Jellinghaus, Peter Schubert, Bernhard Sinkel, Hans Peter Cloos, Edgar Reitz, Katja Rupé, Volker Schlöndorff.

A torre

O diretor mineiro Sérgio Borges faz uma fascinante incursão pelos mistérios do tarô, inspirado no romance Coiote, do psiquiatra Roberto Freire. André, recém-separado, vive isolado em um bosque, transitando entre os meandros da natureza, forças também místicas. Entre encontros nas comunidades, sua ex-mulher que o visita, André se depara com um jovem que evoca o seu passado. A partir daí, sonho, realidade, fantasia, tudo se mistura, caminhando em direção à torre, carta do tarô que evoca um grande acontecimento, maior do que a realidade. 

“Toda a atmosfera construída representa o universo emocional do personagem, andando pelas sombras e tentando reencontrar a luz de alguma forma. O filme deixa margem para interpretação, ele sugere mais do que afirma. Vi um ritual de passagem entre idades, com o mais velho abandonando a sua juventude inocente e sedutora. É um acerto de contas: o jovem continua ali, provocando o homem mais velho. Tem uma ideia de morte e renascimento.” – Sérgio Borges (papo de cinema)

A torre (Brasil, 2019), de Sérgio Borges. Com Enrique Diaz (André), Caio Horowicz (Coiote), Maeve Jinkings (ex-esposa de André). 

A mesma parte de um homem

Existem ótimas referências para entender o cinema brasileiro que combina escassez de recursos com histórias intimistas, marcadas pela beleza estética. A mesma parte de um homem traz estes elementos, acrescidos com as ótimas interpretações do elenco. 

Renata e Miguel vivem isolados em uma cabana, junto com a filha adolescente. Trabalham a terra, agricultura de subsistência no interior do Brasil. Logo na primeira sequência, Miguel morre em um acidente de carro, mas o inesperado acontece: um homem ferido, desmemoriado, bate à porta da cabana e assume o lugar de Miguel. 

O filme está à beira de um gênero que tem feito sucesso no cinema contemporâneo nacional: o suspense. O passado de Lui pode trazer revelações imprevisíveis e violentas, mas é a personalidade conflituosa de Renata, oscilando entre o medo e o desejo, que domina a trama. O sensível final na estrada úmida deixa em aberto muito do que esconde a alma humana.  

A mesma parte de um homem (Brasil, 2021), de Ana Johann. Com Clarissa Kiste (Renata), Irandhir Santos (Lui), Laís Cristina (Luana), Otavio Linhares (Miguel).

A rena branca

O belo terror de Erik Blomberg é inspirado nas crenças do povo sámi, seminômades que vagem pelas terras geladas da Lapônia. A jovem Pirita se casa completamente apaixonada pelo caçador Aslak. Ela fica a maior parte do tempo sozinha, a solidão combinada com saudade leva Pirita a um xamã, ermitão que vive no topo da geleira. 

A jovem, sedenta de amor e sexo, toma uma poção que a torna desejável por todos. Mas saciar o desejo, desperta o terror da rena branca. 

É um conto sobre a necessidade de sobrevivência na paisagem desolada, fria, que só agrava a solidão e desperta o desejo de amor e afeto nas pessoas. Pirita se entrega de alma e corpo que se transmuda à luta por seus desejos, cujo destino estava traçado pela gélida canção. 

Menininha, criança da Lapônia / Nascida na neve / Passou a infância /Com os sapatos recheados de palha / Como uma rena / Por ser criança não sabia / Nem quando se casaria /Nem que ela nasceu bruxa / Com o demônio em sua barriga / Ela ofereceu ao deus de pedra / E à Madder-Akka / Uma rena branca / Caminhou nas colinas como uma rena / Na hora marcada / A lança atravessou a rena branca / Então a menina lapona dormiu / A neve fria como cobertor / Uma pilha de neve como travesseiro

A rena branca (Valkoinen peura, Finlândia, 1952), de Erik Blomberg. Com Mirjami Kuosmanen (Pirita), Kalervo Nissilä (Aslak), Åke Lindman (Metsänhoitaja).

A noite

O angustiante filme de Antonioni acompanha um dia e uma noite na vida do escritor Giovanni e sua esposa Lídia. O ponto de partida é a visita do casal ao hospital, onde o amigo Tommaso está internado – ele sofre com uma doença terminal. 

A crise do relacionamento do casal se evidencia ao correr das horas, pontuada por uma sucessão de encontros casuais: a ninfomaníaca que seduz Giovanni no hospital; o longo passeio de táxi de Lídia pela periferia da cidade; o editor de Giovanni que anuncia também uma crise profissional; por fim, a festa em uma mansão à noite, frequentada pelos fúteis membros da alta sociedade. 

O encontra final que desencadeia a frustração dos protagonistas é o pretenso relacionamento entre Giovanni e Valentina, a jovem filha do anfitrião da festa. Destaque para as atuações perturbadoras de Jeanne Moreau e Marcello Mastroianni e para a arrebatadora entrada em cena de Monica Vitti.  

A noite (1961) faz parte da trilogia de Antonioni sobre a alienação, o tédio que domina a vida dos integrantes da alta sociedade. Os outros filmes são A aventura (1960) e O eclipse (1962). 

A noite (La notte, Itália, 1961), de Michelangelo Antonioni. Com Marcello Mastroianni (Giovanni), Jeanne Moreau (Lídia), Monica Vitti (Valentina), Bernhard Wicki (Tommaso Garani). 

A morte de um corrupto

Xavier Maréchal acorda de madrugada com o toque da campainha de casa. É seu amigo Philippe Dubaye, importante político francês. Dubaye revela que acabou de cometer um assassinato. A vítima tinha em mãos um caderno com nomes de vários políticos franceses, envolvidos em esquemas de corrupção, e estava chantageando Dubaye.

A morte deste corrupto é o ponto de partida para uma intrincada trama de suspense – o caderno é o famoso “MacGuffin” de Hitchcock, pois passa a ser questão de vida ou morte para preservar os importantes políticos envolvidos. Policiais e bandidos contratados entram em ação, assassinatos acontecem, no centro de tudo está Maréchal, envolvido acidentalmente nesta intrincada rede de crimes políticos. Um filme noir de prender o fôlego e instigar a reflexões sobre a perpetuação do poder.  

A morte de um corrupto (Mort d’un pourri, França, 1977), de Georges Lautner. Com Alain Delon (Xavier Maréchal), Ornella Muti (Valérie), Klaus Kinski (Nicolas Tomski), Maurice Ronet (Philippe Dubaye), Daniel Ceccaldi (Lucien Lacor), Julien Guiomar (Fondari), Stéphane Audran (Christiane), (Mireille Darc (Françoise). 

A cor da romã

A corda da romã foi mais um dos grandes filmes soviéticos censurados pelo regime. Coisas dos ditadores que nomeiam a arte, principalmente o cinema, como inimigos do governo. 

O diretor Sergei Parajanov faz um retrato lírico, poético, surrealista, de Sayat Nova,  poeta armênio do século XVII, apelidado de o “Rei da Canção.” Sem narrativa, a obra é uma sucessão de poesia visual lírica, com fortes ressonâncias religiosas. Experiência estética bem ao estilo do novo cinema dos anos 60 que correu o mundo com ousadia, o cinema rebelde que reverbera até hoje. 

“O uso notável do enquadramento similar ao de uma pintura evoca o espaço restrito de filmes feitos há cerca de um século, ao passo que o uso magnífico da cor e os extravagantes conceitos poéticos e metafóricos parecem originários de algum cinema utópico do futuro. Não temos, entretanto, que decifrar as imagens de modo sistemático para experimentar o seu assombroso poder. Os planos da abertura mostram três romãs que espalham seu suco vermelho sobre uma toalha de mesa branca, um punhal manchado de sangue, pés descalços esmagando uvas, um peixe (que imediatamente vira três peixes) se agitando entre duas tábuas de madeira e água caindo sobre livros. Ao mesmo tempo ‘difíceis’ e imediatas, enigmáticas e encantadoras, as imagens perfeitas em todo o filme nos lembram miniaturas persas infundidas em ecstasy.”

A cor da romã (Rússia, 1969), de Sergei Parajanov.

Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.