Planeta fantástico

A obra cult de René Laloux usa a fascinante animação de recortes, criada por Roland Topor , e uma fascinante trilha sonora de jazz psicodélico. A narrativa se passa no planeta Ygam, habitado pelos gigantes Draags, cuja pele tem coloração azul. Os Draags vivem em processo de meditação constante, mas, apesar deste avanço psicológico, têm seu lado cruel: eles escravizam humanos, adotando-os como animais de estimação. No entanto, humanos “selvagens”, que vivem escondidos, planejam uma rebelião. 

Planeta fantástico segue uma tendência narrativa comum a partir do final dos anos 60, iniciada com o clássico Planeta dos macacos: os humanos é que são tratados como animais, como escravos. Logo na primeira sequência da animação, a crítica severa dá o tom da narrativa: um grupo de crianças Draags mata, como uma brincadeira, uma humana que foge com seu bebê nos braços. Esse menino, narrador da história, será o líder da rebelião.  

Planeta Fantástico (La Planète Sauvage, França, 1973), de René Laloux.

Comizi D’Amore

Pasolini busca opiniões sobre sexo em uma das suas raras experiências pela narrativa documental. De microfone em punho, o diretor aborda grupos de crianças, jovens, trabalhadores, mulheres, prostitutas, em várias cidades do país, da Sicília à Milão. 

Os temas variam sobre o sexo como solução para o matrimônio, sobre a polêmica legalização do divórcio na Itália católica, sobre prostitução e homossexualismo. Na parte final do documentário, Pasolini abre espaço para um debate que ganhou as ruas de Nápoles: a Lei Merlin, que proibiu o funcionamento de bordéis e, segundo os moradores, principalmente os homens, incentivou a prostituição nas ruas o que aumentou a incidência de doenças venéreas. 

Entre os depoimentos, intelectuais do porte de Alberto Moravia e Cesare Musatti dialogam com o diretor sobre o sexo na vida cotidiana das pessoas. Pasolini, ateu e homossexual, é ferino em suas perguntas, não poupando nem mesmo as crianças de pensar e comentar sobre o assunto. Em vários momentos, a edição recorre ao corte do som, com a inscrição “autocensura”. Na ficção ou no documentário, Pier Paolo Pasolini não deixa pedra sobre pedra em suas abordagens sobre tabus.  

Comizi D’Amore (Itália, 1964), de Pier Paolo Pasolini.

Nós

O documentário da feminista Alice Diop, filha de pais senegaleses, é dedicado ao escritor François Maspero: “O seu livro Les Passagers du Roissy Express me incitou a ver e amar o que havia diante dos meus olhos.”

Na primeira sequência, o ver e ouvir é representado por um casal e seu filho, em um bosque, observando de binóculos cervos selvagens. A partir daí, a diretora segue o cotidiano de personagens que usam o trem RER B, que atravessa Paris, conectando subúrbios ao centro da cidade.

Compõem o filme um mecânico africano, uma cuidadora de idosos, um escritor e a própria Alice Diop que interage com os retratados. No final, uma simbólica trupe de “nobres”, vestidos a caráter para uma caça aos animais, confirma a disparidade social sugerida durante a narrativa, que dá voz aos moradores da periferia.  

Nós (Nous, França, 2021), de Alice Diop.

Nuestros cuerpos son sus campos de batalla

A diretora francesa Isabelle Solas centra sua câmera na trajetória política, combativa, de Claudia e Violeta, duas mulheres trans. Elas reúnem e lideram grupos de ativistas que buscam conscientizar a conservadora sociedade argentina dos direitos transfeministas. 

A narrativa traz depoimentos de Claudia, Violeta e outras mulheres, momentos de reivindicações nas ruas, cenas cotidianas de casa e trabalho, além da cobertura do julgamento de um homem acusado do assassinato de Diana Sacayán, uma mulher trans. 

Isabelle Solas planejou o documentário a partir do encontro com mulheres do Colectivo Otrans. “Queria dissecar como o desejo pode ser político, esta fonte individual e coletiva que torna possível pensar o mundo de forma diferente. Estes corpos que se movem neste território conturbado e violento que é hoje a Argentina; e que são em si mesmos um ato de resistência.” – declara a diretora.

O título do documentário foi inspirado no cartaz da artista Bárbara Kruger, criado em apoio à luta pelo aborto: Your body is battleground.

Nuestros cuerpos son sus campos de batalla (Argentina, 2021), de Isabelle Solas. 

A noite do terror

Johnny, um marinheiro em descanso no final de semana, chega a uma bela cidade litorânea. Em um bar, à noite, conhece e se encanta por Mora, uma jovem que ganha a vida posando vestida de sereia em um parque de atrações. Os dois se apaixonam e começam um relacionamento marcado por mistérios, pois Mora guarda segredos de seu passado em uma ilha. O mistério se intensifica quando uma mulher, que se diz, integrante de um grupo místico, começa a perseguir Mora. 

A estreia de Curtis Harrington na direção se tornou um cult dos filmes B dos anos 60. O título original é bem mais intrigante e adequado à narrativa, pois Mora se sente fascinada e ao mesmo tempo ameaçada pelo mar, pelas marés noturnas que assombram seus dias e, principalmente, noites de lua cheia. O jovem Dennis Hopper, ainda longe dos papéis distópicos que marcaram sua carreira, é um atrativo a mais nesta história de sereias irremediavelmente ligadas à maldição. O filme termina com a bela e aterradora frase de Edgar Allan Poe. 

“E assim, durante toda a maré da noite, deito-me ao lado de minha querida – minha querida – minha vida e minha noiva em seu sepulcro à beira-mar, em sua tumba ao lado do mar barulhento.”

A noite do terror (Night tide, EUA, 1961), de Curtis Harrington. Com Dennis Hopper (Johnny), Linda Lawson (Mora), Gavin Muir (Capitão Samuel), Luana Anders (Ellen Sands). 

Titane

O filme abre com uma criança sentada no banco traseiro do carro, imitando o som do motor. O motorista, seu pai, mostra-se irritado e a repreende severamente. A criança, nervosa, solta-se do cinto de segurança, fazendo com que seu pai se distraia do volante, provocando um acidente. Após passar por uma delicada cirurgia no cérebro, a criança sai do hospital e, a primeira coisa que faz, é correr para o carro e encostar a face no vidro com os braços abertos, simulando um grande e terno abraço no veículo. 

Corta para Alexia, agora uma jovem, protagonizando uma dança erótica em cima do capô de um carro esporte. A plateia masculina vai ao delírio, Alexia é uma celebridade neste meio. Sua única motivação são os carros, com quem desenvolve uma relação até mesmo erótica: atenção para a cena de sexo de Alexia com um carro, que resulta em uma inacreditável gravidez. 

Logo no início do filme, Alexia revela uma compulsão para a violência, praticando um série de assassinatos. Violência e erotismo se misturam de forma agressiva, quase repulsiva, neste instigante thriller da diretoria Julia Ducournau, vencedor da Palma de Ouro em Cannes. Quando o bombeiro Vincent entra em cena, a reviravolta no roteiro encaminha o filme para uma espécie de fraternidade familiar, mas mantendo o tom ousado e violento. Titane surpreende pela narrativa, pela estética, pelas relações entre personagens distópicos, cada um à sua maneira. 

Titane (França, 2021), de Julia Ducournau. Com Vincent Lindon (Vincent), Agathe Rousselle (Alexia), Garance Marillier (Justine), Lais Salameh (Rayane). 

Mimetismo

A trama se passa em uma grande casa de campo, durante um congresso universitário de apresentação de artigos científicos. O jovem professor Jakub é o responsável pela organização do evento, tendo que prestar contas sempre a Jaroslaw, seu antigo professor. 

Os longos embates entre os dois professores, de posições intelectuais conflitantes, dominam a narrativa. Outro conflito acontece entre um grupo de alunos, insatisfeitos com os rumos das apresentações, e os organizadores. 

O diretor Krzysztof Zanussi retrata neste pequeno microcosmo burguês intelectual a situação da Polônia durante o regime comunista, marcada por conflitos de classes, por embates entre os velhos representantes do partido e os jovens ansiosos por mudanças. É o eterno conflito de gerações, radicalizado em uma sociedade que insiste em preservar os valores sociais, políticos e culturais do regime dominante. 

Mimetismo (Barway ochronne, Polônia, 1977), de Krzysztof Zanussi. Com Piotr Garlicki (Jaroslaw Kruszyński), Zbigniew Zapasiewicz (Jakub Szelestowski), Christine Paul (Nelly). 

Memória

A escocesa Jessica Holland está na Colômbia, em visita a irmã, acamada em um hospital. Orquidófila, ela tem uma profunda relação com a natureza, contemplativa, silenciosa, quase como uma integrante nata desse meio. Certa noite, ela acorda com um barulho estranho e desconhecido, vindo da selva. Jessica passa a ouvir o barulho em alguns momentos do dia, perde o sono e fica cada vez mais obcecada em descobrir a origem daquele som que parece penetrar em todos os seus sentidos. 

O belo filme de Apichatpong Weerasethakul, primeiro realizado fora da Tailândia, exige do espectador acompanhar a protagonista nestes silêncios contemplativos. Longas imagens estáticas compõem esteticamente a narrativa, os diálogos são curtos, quase monossilábicos, seguidos de silêncios. 

Durante sua jornada, Jessica cruza com pessoas também envoltas nas questões do sentido, como o técnico de um estúdio que a ajuda a reproduzir mecanicamente o som. O encontro entre Jessica e Hernán, que domina a parte final do filme, é pleno de sentidos, porém misterioso, envolto nestas questões incompreensíveis da memória. 

Memória (Colômbia, 2021), de Apichatpong Weerasethakul. Com Tilda Swinton (Jessica Holland), Agnes Brecke (Karen), Daniel Giménez Cacho (Juan), Juan Pablo Urrego (Hernán Bedoya), Elkin Diaz (Hernán Bedoya).

Marjorie Prime

A ficção científica de Michael Almereyda coloca de forma sensível, e um pouco cruel, aquilo que atormenta os humanos sem piedade: a passagem do tempo. Marjorie, de 86 anos, começa a sofrer com a perda da memória. Sua filha, Geena, e seu genro, Jon, tentam confortá-la com um Prime, equipamento que projeta um holograma de seu marido morto há 15 anos. A partir das longas conversas, destinadas a ajudar Marjorie em suas memórias, percebe-se que o Prime aprende e desenvolve também suas memórias.  

À medida que o tempo passa e os protagonistas envelhecem, outros Primes entram em cena, em um primeiro momento confundindo o espectador sobre o real sentido de tudo. Pequenos flashbacks compõem, desnecessariamente, a trama. O que importa é a relação entre cada um e seus entes queridos, substituídos por uma ilusão aparentemente dotada de memórias afetivas. Marjorie Prime é sensível, afetivo, misterioso, cruel quando confronta Marjorie, Tess e Jon com a realidade implacável dos dias que escoam, com a vida que se desvanece como um apagar de telas.  

Marjorie Prime (EUA, 2017), de Michael Almereyda. Com Lois Smith (Marjorie), Geena Davis (Tess), Jon Hamm (Walter), Tim Robbins (Jon). 

Mães paralelas

Pedro Almodóvar parte de uma premissa triste, a troca de bebês na maternidade, para debater o complexo sentimento de maternidade. Janis e Ana dividem o quarto na maternidade quando estão prestes a entrar em trabalho de parto. Tornam-se amigas, confidentes, mantêm uma relação à distância quando as filhas nascem. Tudo muda, de forma drástica quando Janis começa a suspeitar que a bebê que levou para casa não é sua filha genética. 

Não há segredos ou surpresas nesta trama de troca de bebês. O espectador sabe desde o início da verdade. No entanto, uma virada de roteiro muda o relacionamento das duas mulheres. 

O ponto alto do filme é a narrativa paralela: no povoado de Janis, existe uma cova onde foram enterrados vários homens da cidade, executados durante a guerra civil espanhola. O final, quando a cova é aberta por uma ONG, é revelador, amparado pela potente frase de Eduardo Galeano que fecha o filme: 

“Não existe história muda. Por mais que a queimem, por mais que a quebram, por mais que mintam, a história humana se recusa a ficar calada.”

Mães paralelas (Madres paralelas, Espanha, 2021), de Pedro Almodóvar. Com Penélope Cruz (Janis), Milena Smit (Ana), Israel Elejalde (Arturo), Aitana Sánchez-Gijón (Teresa), Rossy De Palma (Elena).