Memórias do subdesenvolvimento 

Memórias do subdesenvolvimento (Memorias del subdesarrollo, Cuba, 1968), de Tomás Gutiérrez Alea.

Cuba, 1961. Diversos cubanos deixam o país, entre eles os pais e a mulher de Sergio (Sergio Corrieri), um negociante que, após a revolução, alugou seus imóveis e passou a viver da renda advinda das locações. Sergio se despede de seus familiares no aeroporto, ele decidiu não deixar o país. Entre 1961 e 1962, o protagonista, que tem pretensões de ser escritor, perambula pelas ruas de Havana, tentando entender os acontecimentos e buscando relacionamentos com mulheres.

O clássico de Tomás Gutiérrez Alea se divide entre a ficção e o documentário. As incursões de Sergio pela nova sociedade é marcada pela amargura: ele toma consciência pouco a pouco que não tem mais como se integrar à nova realidade e sua forma de escape são pequenas aventuras. O relacionamento entre Sergio e uma de suas conquistas, Elena (Daisy Granados), de apenas 16 anos de idade, tem consequências drásticas, pois ele é acusado de estupro pela família da adolescente.  

“Com narrações frequentes, Alea apimenta a história da vida de Sergio com discursos sobre diversos temas. Há um esclarecedor monólogo sobre a dialética marxista, curiosidades sobre as dificuldades de se envelhecer em um clima tropical, o tema genérico do subdesenvolvimento e as inconsistências sociais durante os primeiros dias do governo de Fidel Castro. Esse talvez seja o filme de maior fama internacional produzido em Cuba e dirigido por um dos fundadores da companhia de cinema estatal, Instituto Cubano de Arte e Indústria Cinematográfica (ICAIC). Memórias do subdesenvolvimento é uma crítica impiedosa do sistema capitalista e da revolução comunistda. Dentro da história simples da crise de um homem estão elementos de fantasia, cenas de cinejornais e toques de drama que expressam ao mesmo tempo deleite e desprezo diante do desenrolar da Guerra Fria. Elegante e poderoso, é um tributo à influência criativa de Cuba em um momento de aguda supressão cultural usada como uma máscara para um futuro melhor.”

Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.

A sala de música

A sala de música (Índia, 1958), de Satyajit Ray. 

Huzor Roy (Chhabi Biswas) passa os dias sentado no terraço de seu palacete, servido por seus dois últimos criados. Uma manhã, ele ouve música na casa ao lado e fica sabendo que é o ritual de iniciação do filho dos vizinhos. Flashback remete Roy à iniciação de seu filho, quando o palácio ainda vivia na opulência advinda do feudalismo – na época, Roy era um rico proprietário de terras.

Satyajit Ray realizou A sala de música no intervalo entre o segundo e terceiro filme da famosa trilogia de Apu. O cineasta, motivado por sua paixão pela música clássica (Ray compôs grande parte da trilha sonora de seus filmes), adaptou o conto de Tarasankar Bandyopadhyay, com a intenção de realizar uma espécie de ópera fílmica, usando músicas clássicas indianas. “Fiquei pensando se música e dança poderiam ser temas aceitos no cinema indiano. Esses senhores feudais normalmente eram mecenas das melhores músicas clássicas indianas. Então a música e a dança eram partes essenciais da história. Achei que seria um filme interessante de se fazer. Neste filme temos um homem rico vivendo em um palácio enorme e sua vida está chegando ao fim. Foi por isso que me atraí por esta história, e foi por isso que fiz o filme.” 

O tema do filme é a decadência do feudalismo diante da modernidade industrial. Uma cena antológica, primor de narrativa visual, demarca essa passagem: Roy chega à varanda de seu palacete e vislumbra a terra árida, que outrora estava coberta de plantações. Um elefante é visto distante, mas visível em sua opulência. Um caminhão entra em quadro pela direita, trafegando pela estrada entre o palacete e o animal. A poeira levantada pelo veículo cobre inteiramente o elefante. 

“A atmosfera de decadência e a melancolia do filme são quase inebriantes. Sentimos o fim do mundo de Roy visceralmente e, ainda assim, como o protagonista, desejamos que ele não morra – por mais impossível que isto seja. A observação atenta e a evocação meticulosa de uma época e lugar – características dos filmes neo-realistas de Ray – funcionam bem aqui, porém para fins mais expressionistas. Vemos que os dois criados restantes estão perdendo a batalha para os elementos da natureza à medida que plantas e insetos tomam conta do castelo. As planícies sem vegetação que Roy observa espelham sua morte lenta. Satyajit Ray explora novas idéias e técnicas neste filme – e é fascinante assistir à expansão do seu estilo. A sala de música é um banquete para os sentidos e uma obra-prima essencial do cinema mundial.”

Elenco: Chhabi Biswas (Huzur Biswarbhar), Gangapada Basu (Mahim Ganguly), Padma Devi (Mahamaya). 

Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.

Pedágio

Pedágio (Brasil, 2023), de Carolina Markowicz.

Suellen trabalha como cobradora de pedágio nas imediações de Cubatão. Ela vive com seu namorado Eraldo e o filho adolescente Tiquinho, que passa os dias entre os estudos e gravando vídeos para a internet se insinuando como transformista. Suellen descobre que Eraldo está envolvido com atividades criminosas e o expulsa de casa. 

A diretora Carolina Markowicz e a atriz Maeve Jinkings repetem a parceria do primeiro longa da diretora, Carvão (2022). O tema do filme é a relação conflituosa entre Suellen e seu filho, com decisões que abrem a reflexão sobre o fanatismo religioso e o preconceito. Suellen recorre a um Pastor que ganhou renome no procedimento de “cura-gay”, tentando matricular Tiquinho no curso. Como o “tratamento” é caro, Suellen se alia a Eraldo, fornecendo informações sobre os viajantes que passam pelo pedágio com potencial para serem assaltados na estrada. 

Pedágio participou de importantes circuitos internacionais, entre eles o Festival Internacional de Cinema de Toronto e o Festival de San Sebastian. O filme foi um dos pré-selecionados para representar o Brasil no Oscar 2024 e recebeu diversos prêmios no Brasil, consolidando o nome de Carolina Markowicz como uma das mais promissoras diretora do cinema nacional contemporâneo. 

Elenco: Maeve Jinkings (Suellen), Kauan Alvarenga (Tiquinho), Aline Marta Maia (Telma), Thomás Aquino (Arauto), Isac Graça (Pastor Isac).

O herói

O herói (Nayak, Índia, 1966), de Satyajit Ray. 

Arindam Mukherjee (Uttam Kumar), famoso ator de filmes comerciais, embarca em um trem em Calcutá, com destino a Nova Delhi, onde vai receber um prêmio. Naquela manhã, o ator é manchete dos jornais após ser flagrado bêbado, brigando em um bar. 

Durante a viagem de 24 horas, Arindam interage com outros passageiros. Um jornalista que despreza a indústria cinematográfica. Uma adolescente adoentada e silenciosa, sua companheira de cabine, que se limita a olhares ternos para seu ídolo. A mãe da adolescente que fala sem parar sobre sua idolatria, sob o olhar recriminador da filha. Aditi Sengupta (Sharmila Tagore), editora de uma revista feminina, que também sente certo desprezo pelo mundo do cinema.

O herói motiva a reflexão sobre a indústria cinematográfica que cria astros, talvez efêmeros, “basta dois filmes fracassos de bilheteria, para você estar fora do sistema”, diz Adiram em um diálogo. O filme se passa inteiramente dentro do trem, com flashbacks e inserções de sonhos do protagonista – ele caminha por uma montanha de dinheiro até ser sugado diante dos olhos de seu antigo mentor, um diretor de teatro, que se recusa a salvá-lo. 

Os encontros entre Adiram e Aditi – ela funciona como uma espécie de consciência do ator, rendem os diálogos mais provocativos da narrativa. Aditi o confronta, tentando esconder o deslumbramento que sente pelo ator atrás de seus pesados óculos de grau. Adiram também esconde, usando óculos escuros quase o tempo todo, seu olhar conflituoso e amargurado. No entanto, o mestre indiano Satyajit Ray não esconde seu olhar crítico e severo sobre o cinema e suas celebridades. 

Licorice pizza

Licorice pizza (EUA, 2021), de Paul Thomas Anderson.

Los Angeles, início dos anos 70. Gary Valentine, 15 anos, é confundido com um assassino e levado para a delegacia. Alana Kane, 25 anos, corre atrás da viatura. Uma testemunha do crime não reconhece Gary e ele é rapidamente liberado. Alana chega esbaforida à porta da delegacia, os dois se olham pela porta de vidro. Gary sai, os dois se abraçam e começam a correr pelas ruas de Los Angeles, como se estivessem fugindo. A câmera em travelling acompanha os jovens, cabelos esvoaçando, os sorrisos, os semblantes, os olhares que trocam, correm em liberdade, talvez apaixonados, talvez apenas sentindo a sensação da juventude.

A narrativa despretensiosa da obra de Paul Thomas Anderson, indicado ao Oscar de Melhor Filme, acompanha a jornada de Gary e Alana na cidade dos sonhos. Gary é um aspirante a ator, mas como não tem sucesso, começa um negócio de venda de colchões de água. Alana não tem pretensões nenhuma, segue Gary em seu negócio e recusa qualquer tipo de relacionamento com o garoto dez anos mais novo do  que ela. 

A corrida dos dois, que se repete quando eles fogem de um negócio atrapalhado, é simbólica: são os anos 70, os sonhos da juventude se desvanecem na sociedade movida pelo consumo, mas é preciso continuar, soltos, de mãos dadas, sorrindo para a vida. Gary Hoffman, filho de Philip Hoffman, e Alana Haim, cantora da banda Haim, estão encantadores durante a jornada pontuada por situações cômicas, relacionamentos desastrosos (atenção para a participação de Sean Penn, como William Holden, e Bradley Cooper, como o produtor Jon Peters), e uma bela trilha sonora.

O final dessa corrida? Fica por conta do olhar e da imaginação do espectador, principalmente de quem viveu jovem assim nos anos 70. 

Mishima: uma vida em quatro tempos

Mishima: uma vida em quatro tempos (Mishima: a life in four chapters, EUA, 1985), de Paul Schrader.

Considerado um dos maiores escritores do japão, Yukio Mishima teve uma vida controversa, com tentativas de conciliação entre sua arte e sua vida pessoal. A filmografia de Paul Schrader é um experimento narrativo e estético que entrelaça as diversas facetas, máscaras, do diretor. 

O filme começa no último dia de vida de Mishima (Ken Ogata), quando ele e quatro jovens vestem seus trajes militares e se encaminham ao quartel do exército para um ato rebelde. Flashbacks alternados e fragmentados retratam a infância e juventude do  escritor, com fotografia em preto e branco, e encenações de três de suas famosas obras: O templo do pavilhão dourado, A casa de Kyoto e Cavalos em fuga. As encenações acontecem em cenários minimalistas e suntuosos em termos de cores e direção de arte. 

A narrativa, dividida em quatro atos, passa por importantes momentos do Japão pós-guerra, quando o país assumia a modernidade em detrimento de suas tradições. Paul Schrader apresenta a personalidade conflituosa de Mishima por meio de um roteiro engenhoso, arte e vida se misturando, se entrelaçando, completando uma à outra. O gesto final de Mishima, encenado de duas maneiras, demarca o conflito do artista/pessoa de forma perturbadora. 

A morte de um burocrata

A morte de um burocrata (La muerte de un burocrata, Cuba, 1966), de Tomás Gutiérrez Alea.

O filme abre com o enterro de Paco, que passou a vida se dedicando ao trabalho, se transformando em exemplo nacional. Ele inventou uma máquina capaz de produzir bustos, estátuas, em série. A máquina apresenta um defeito, Paco tenta consertá-la e acaba sugado pelas engrenagens – a morte do operário é encenada em uma divertida sequência de animação. 

A comédia pastelão, com toques de surrealismo, é uma crítica severa à burocracia estatal. A viúva de Paco recorre ao funcionalismo público para receber a pensão, mas não consegue devido a um fato: os sindicalistas, como forma de homenagem, enterraram Paco junto com sua carteira de trabalho. O sobrinho da viúva começa um périplo sem fim por instituições até que resolve desenterrar o cadáver à noite para recuperar o documento.  A partir daí, a trama ganha os contornos do absurdo, bem ao estilo Luís Buñuel e das comédias pastelões do cinema mudo.

Segundo Tomás Gutierrez Alea, a ideia do filme surgiu de suas experiências pessoais, pois ele teve que resolver problemas domésticos e passou a conviver com a burocracia.

“Cheguei a um ponto em que me senti tão agoniado que tinha ânsias de ‘justiçar’ um burocrata. Tinha acumulado muitas situações de violência reprimida. Os problemas do cotidiano aumentavam e eu vivia irritado. A decisão de fazer esse filme foi uma psicoterapia incrível: me permitiu desviar a violência que estava sentindo e jogá-la no filme. Continuava com minhas dificuldades domésticas – ia aos escritórios, enfrentava funcionários burocratas e perdia muito tempo – mas de algum modo me enriquecia: levava um caderno de apontamentos onde anotava situações, comportamentos, dados. Meus esforços se converteram num trabalho de pesquisa que acabou sendo interessantíssimo e comecei a enfrentar a situação com grande senso de humor. “

Elenco:  Salvador Wood, Silvia Planas, Manuel Estanilo, Omar Alfonso. 

Referência: Gutierrez Alea: Os filmes que não filmei. Silvia Oroz. 

Cinzas do passado redux

Cinzas do passado redux (Dung che sai duk, Hong Kong, 2008), de Wong Kar Wai. 

O filme abre com a câmera percorrendo em travelling um deserto amarelo exuberante. Voz do narrador do filme: “É um ano de eclipse total, a seca assola a terra. Seca significa problemas. Problemas significam bons negócios. Eu sou da Montanha do Camelo Branco. Me chamo Feng. Sou especialista em resolver problemas.” 

Ou-yang Feng (Leslie Cheung) foi um famoso espadachim, esses artistas das artes marciais que se consagraram no cinema oriental desde Os sete samurais (1954), de Akira Kurosawa. Feng se exila na montanha após ser abandonado pelo seu grande amor. A especialidade em “resolver problemas” a que Feng se refere é intermediar a contratação de assassinos de aluguel. “Matar em si, não é um problema. Tenho um amigo que conhece certas artes marciais. Ele está um pouco sem sorte ultimamente. Por uma pequena taxa ele ficará feliz em livrá-lo dessa pessoa.” Diz Feng a um interlocutor.

O gênero chinês wuxia ganha contornos estéticos fascinantes nas mãos e olhar de Wong Kar Wai. O ritmo lento, demarcado pela extravagante profusão de cores, closes em momentos tensos, personagens que parecem voar em câmera lenta nas cenas de luta – o estilo Wong Kar Wai. 

Cinzas do passado foi lançado em 1994 e passou por um longo processo de restauração, O filme original tinha cópias em versões diferentes, todas já em processo de deterioração. O próprio diretor coordenou a restauração que resultou na “versão definitiva”,  aprimorada em seus elementos estéticos, com alterações na estrutura narrativa, incluindo novas músicas. A narrativa, centrada nos sentimentos de frustração e melancolia dos protagonistas,  é entremeada por cenas artísticas de combates entre os guerreiros espadachins, inaugurando um estilo que se consagraria com filmes como O tigre e o dragão (2000), de Ang Lee, e a trilogia de Zhang Yimou: Herói (2002), O clã das adagas voadoras (2004) e A maldição da flor dourada (2006). 

Jane B. por Agnès V.

Jane B. por Agnès V. (França, 1988), de Agnès Varda.

Em 1988, Jane Birkin estrelou o polêmico e ousado filme Kung Fu Master, dirigido por Agnès Varda. As filmagens foram realizadas na casa de Jane Birkin, em Londres. Durante as filmagens, a consagrada modelo, atriz e cantora revelou à Agnes Varda seu medo de completar 40 anos. Diretora e atriz fizeram, então, um projeto paralelo à Kung Fu Master: o documentário, mescla de realidade e ficção, Jane B. por Agnès V.  

A estrutura fragmentada do filme intercala reflexões de Jane Birkin sobre sua carreira e seus relacionamentos amorosos, principalmente com Serge Gainsbourg; pequenos trechos de filmes, imagens de arquivo, incluindo interpretações de famosas canções; participação ativa da diretora com perguntas ousadas. A parte ficção é uma série de esquetes nas quais Jane Birkin interpreta papéis famosos do cinema, como Joana D’Arc, Calamity Jane, Jane (Tarzan) e uma divertida simulação de O gordo e o magro, contracenando com Agnès Varda. 

Agnès Varda sempre usou o termo documenteur para seus projetos, sugerindo a mistura de documentário e ficção, realidade e imaginação. O documentário conta com participações especiais de celebridades em alguns quadros: Jean-Pierre Léaud, Philippe Léotard e Serge Gainsbourg. 

A  participação de Jean-Pierre Léaud, famoso astro da nouvelle-vague francesa, surge após um diálogo divertido: 

Agnès Varda: Com que atores gostaria de contracenar?

Jane Birkin: Com o Marlon Brando.

Agnès Varda: Caro demais! Um ator francês do mesmo gênero e mais barato. 

Jane Birkin: Jean-Pierre Léaud. Ele tem um olhar desesperado que eu gosto muito, parece meio perdido. Eu prefiro as pessoas perdidas. 

A morte ronda o cais

A morte ronda o cais (99 river street, EUA, 1953), de Phil Karlson.

O ex-boxeador Ernie Driscoll (John Payne) está sentado na sala de sua casa assistindo a reprise de sua última luta na TV. Prestes a ser campeão, ele vencia por pontos, Ernie sofreu nocaute técnico, machucando seriamente o olho. O ferimento acabou com sua carreira. 

Ernie trabalha como motorista de táxi e é casado com a bela Pauline (Peggie Castle) que não aceita as dificuldades financeiras na qual vivem. Em uma noite, durante uma de suas rondas noturnas, Ernie descobre que Pauline tem um amante. Victor Rawlin (Brad Dexter) é um perigoso bandido, ele precisa vender um colar de diamantes por 50.000 dólares para fugir com sua amante. 

O roteiro de A morte ronda o caís usa um estratagema simplista para provocar a virada: o negociante de jóias roubadas, quando vê que Rawlins está com Pauline, diz que não negocia com mulheres; Rawlins então mata Pauline e a coloca no carro de Ernie, para incriminá-lo. Ernie precisa provar sua inocência e conta com a ajuda de Linda James (Evelyn Keyes), uma aspirante a atriz (atenção para a sequência de farsa de um assassinato no palco do teatro). 

Os produtores de filmes B americanos, de onde saíram boa parte dos filmes noir, não se preocupavam com soluções de roteiros simples, o importante era transformar a história em uma trama de assassinato, recheada de cenas de ação com desfecho rápido. A morte ronda o cais usa dessa estratégia, mas a trama debate uma questão cara ao cinema noir: homens fracassados, sem esperança e perspectivas de ascensão, que são geralmente seduzidos por mulheres que se aproveitam desta condição para encaminhá-los à destruição. O frenético final no pier abre uma nova possibilidade para os trágicos e tristes finais de filmes noir.