Histórias que nosso cinema (não) contava

Um dos momentos de maior bilheteria do cinema brasileiro é a pornochanchada, gênero que marcou os anos 70 e início da década de 80. Fernanda Pessoa fez intensa pesquisa, assistindo e coletando material de filmes que iam além da ousadia sexual travestida de comédia.

A montagem do documentário é um primor. Sem narração ou depoimentos, sequências dos filmes se sucedem, separadas por temas: tortura perpetrada pela ditadura, consumismo nestes anos do milagre econômico, exploração do corpo feminino, violência contra a mulher, machismo, preconceito racial, homossexualismo, corrupção política. Muitos filmes da pornochanchada foram censurados pelo regime militar. Outros conseguiram inserir em meio a narrativas despretensiosas questões determinantes para a formação da sociedade brasileira. Fernanda Pessoa resgata a pornochanchada como gênero e como resistência política.  

Histórias que nosso cinema (não) contava (Brasil, 2017), de Fernanda Pessoa. 

Baronesa

A interseção entre documentário e ficção é tendência do cinema brasileiro. A diretora Juliana Antunes exercita o estilo em Baronesa, projeto que começou como um documentário quando ainda estudava Cinema e Audiovisual e enveredou para relatos ficcionais envolvendo personagens da periferia de Belo Horizonte. 

Andreia mora no bairro Juliana, mas está construindo uma casa no vizinho Baronesa (Juliana Antunes relata que a ideia do filme começou da observação do transporte público de Belo Horizonte, pois diversos bairros trazem nomes femininos). Leid, amiga de Andreia, cuida dos filhos enquanto espera o marido sair da cadeia. As filmagens aconteceram em locações, com moradoras do próprio bairro que improvisaram situações e diálogos. A câmera assume posição íntima das personagens, registrando imagens do cotidiano e diálogos coloquiais sobre criação dos filhos, sexo, questões sociais. Em determinada sequência, tiros invadem o som ambiente, equipe de filmagem e personagens correm para dentro da casa. Neste momento das filmagens aconteceu um tiroteio no bairro, conflito de duas gangues do tráfico rivais. Está no filme. É a força de Baronesa: o registro do cotidiano de mulheres da periferia, envolvidas pelos dramas e tragédias da realidade. 

Baronesa (Brasil, 2017), de Juliana Antunes. Com Andreia Pereira de Sousa, Leid Ferreira, Felipe Rangel Soares. 

O animal cordial

Inácio é, aparentemente, o tranquilo dono de um restaurante em São Paulo. Uma noite, perto da hora de fechar, três homens invadem o estabelecimento em tentativa de assalto. O que se segue é das mais impressionantes incursões do cinema brasileiro pelo gênero slasher.

A diretora estreante Gabriela Amaral Almeida reúne personagens dentro do restaurante que representam a tensão de classe, de gênero e outras facetas escondidas da população brasileira. A explosão gradual de Inácio (preste atenção na brilhante cena de Murilo Benício em frente ao espelho e na incrível cena de sexo no chão do restaurante) resulta em sangue para todos os lados. Ninguém é poupado. O animal cordial demonstra a força do cinema brasileiro nas mãos das diretoras.  

O animal cordial (Brasil, 2017), de Gabriela Amaral Almeida. Com Murilo Benicio, Luciana Paes, Irandhir Santos, Camila Morgado, Ernani Moraes. 

Mormaço

A narrativa abre com imagem de Ana deitada na pedra ao sol, em uma cachoeira. Corta para imagens de explosões de obras, preparando a cidade para as Olimpíadas do Rio de Janeiro 2016. Cortina de fumaça invade as ruas, Ana é envolta pela densa e sufocante onde de calor e sujeira. 

As cenas de abertura determinam o tom do filme: o calor do Rio associado às obras das Olimpíadas provocam ondas de revoltas. Ana é advogada e defende causa popular dos moradores da Vila Autódromo, despejados por conta da construção da Vila Olímpica. Ela mora em prédio que também está em vias de abandono pelos moradores, pois hotel de luxo será construído no local. Manchas começam a aparecer na pele da advogada sem diagnóstico preciso pelos médicos. 

Mormaço debate os problemas decorrentes do megaprojeto olímpico, colocando em pauta o agressivo plano de desocupação de moradores. A degradação da cidade e das pessoas é indicada através de metáforas visuais e narrativas. Atenção para a triste imagem dos desocupados arrastando seus pertences na calçada em frente ao Estádio Olímpico.  

Mormaço (Brasil, 2018), de Marina Meliande. Com Mariana Provenzzano (Ana), Paulo Gracindo (Pedro), Analú Prestes (Rosa), Sandra Maria Teixeira (Domingas).  

A casa de veraneio

A princípio, há um toque de humor nos pequenos e diversos conflitos que permeiam a narrativa do filme. Começa com Luca rompendo com Anna em um café de Paris, pouco antes da cineasta se reunir com grupo de investidores em busca de dinheiro para seu novo filme. Corta para paradisíaca mansão à beira do mar na Côte d’Azur onde amigos se reúnem para as férias de verão. 

Anna, proprietária da casa junto com a irmã Elena, tenta escrever o roteiro de seu filme, baseado na morte do irmão, enquanto sofre com a separação de Lucca. Os outros personagens entremeiam dramas, angústias, discutem sobre o passado. Todos são de classe média alta, estão na meia idade ou já na terceira idade. Do outro lado, os empregados da casa também desfilam seus dramas pessoais. O tom de humor se perde à medida que entram questões como crise entre casais, solidão, velhice, depressão, conflitos de classes, xenofobia, dilema de integrantes da esquerda francesa diante da ascensão da direita. Difícil esboçar sorrisos, mesmo quando os personagens se entregam às caricaturas de si mesmos, diante de tanta angústia. 

A casa da veraneio (Les estivants, França, 2018), de Valeria Bruni Tedeschi. Com Valeria Bruni Tedeschi (Anna), Pierre Arditi (Jean), Valeria Golino (Elena), Noémie Lvovsky (Nathalie), Yolande Moreau (Jacqueline), Laurent Stocker (Stanislas), Riccardo Scamarcio (Luca), Bruno Raffaelli (Bruno), Stefano Cassetti (Marcello), Brandon Lavieville (François), Celia (Oumy Bruni Garrel). 

Como nossos pais

Rosa (Maria Ribeiro) representa as angústias de grande parte das mulheres na contemporaneidade. Perto dos 40 anos, ela enfrenta problemas no casamento, frustrações no trabalho, convive com dilemas de relação com as filhas adolescentes, cuida dos pais idosos. A mãe sofre com doença terminal e faz revelação bombástica sobre a paternidade de Rosa, provocando reviravoltas nos caminhos da protagonista.

Como nossos pais é o retrato dos problemas que assolam famílias de classe média: conflitos entre gerações, desconfianças e infidelidades conjugais, frustrações profissionais, machismo, liberdades sexual, abandono dos pais. Rosa faz refletir sobre o papel da mulher em meio a tudo isto, afirmando o protagonismo feminino – Laís Bodanzky na direção, Maria Ribeiro como protagonista – na recente produção do cinema brasileiro. 

Como nossos pais (Brasil, 2017), de Laís Bodanzky. Com Maria Ribeiro, Clarisse Abujamra, Paulo Vilhena, Felipe Rocha, Jorge Mautner, Herson Capri. 

Cleo das 5 as 7

BBC Culture lançou lista dos 100 melhores filmes realizados por mulheres. O piano (1993), de Jane Campion, lidera. Em seguida vem Cléo de 5 às 7. A cineasta francesa Agnés Varda tem seis filmes na lista dos 100 melhores. 

Cléo de 5 às 7 é dos mais importantes filmes da nouvelle vague francesa. A trama acompanha duas horas na vida da cantora Cléo (Corinne Marchand), enquanto ela aguarda o resultado de exame médico que pode atestar ou não um câncer. A caminhada da cantora pelas ruas de Paris é marcada pela irreverência estilística típica do movimento que revolucionou o cinema. 

“Como está claro no título, Varda escolheu acompanhar a angústia de Cléo praticamente em tempo real, levando em conta, portanto, a emergência e as técnicas do ‘cinema direto’. A casualidade da narrativa permite que a ficção se funda ao documentário enquanto a jovem vaga pela Rive Gauche de Paris, principalmente pelos arredores da estação de trem de Montparnasse, acompanhada por atordoantes travellings. Mas o realismo de Varda também é capaz de gerar emoções poderosas ao mostrar em um crescendo os sinais da lenta agonia gravada no rosto de sua protagonista.”

Cléo de 5 às 7 (Cléo de 5 à 7, França, 1962), de Agnés Varda. Com Corinne Marchand, Antoine Bourseiller, Dominique Davray, Dorothée Blank.

Deslembro

Deslembro trata com sensibilidade da história recente do Brasil que o atual governo insiste em negar: a ditadura militar. A adolescente Joana vive em Paris com a mãe e reluta em voltar ao Brasil após a anistia política. No Rio de Janeiro, ela conhece a avô Lucia e passo a passo vai se entregando as memórias de criança, quando o pai vivia na clandestinidade e acabou preso pelos militares. Foi considerado desaparecido, seu corpo nunca foi encontrado. Um fato atesta a crueldade desta condição: a turma escolar de Joana vai participar de excursão a Ouro Preto; a garota precisa da autorização dos pais, mas como não tem o atestado de óbito do pai é impedida de viajar. 

A narrativa parte das próprias memórias da diretora Flávia de Castro. Em 1972, seus pais tiveram que deixar o Brasil, história retratada no documentário Diário de uma busca (2011). A fotografia é dos pontos de destaque de Deslembro. Em Paris as cores são vibrantes, no Rio de Janeiro a fotografia ganha um tom frio; o tratamento da imagem também remete ao cinema dos anos 70/80. Jeanne Boudier faz sua estreia como atriz, tratando a personagem com as dubiedades próprias da adolescência: revolta, compreensão; carinho e raiva pelos familiares; deslumbre com o novo país, com a descoberta da sexualidade. O tom político ganha força com o padastro chileno e, principalmente, nas memórias da avó Lúcia sobre o filho desaparecido.

Deslembro (Brasil, 2018), de Flávia Castro. Com Jeanne Boudier (Joana), Sara Antunes (mãe), Eliane Giardini (Lúcia). 

Nosso ex-marido

A diretora alemã Margarethe von Trotta investe no relacionamento de duas mulheres para compor retrato da sociedade ainda marcada pelo domínio dos homens no destino de ex-esposas. Jade é promissora designer de moda, vive em um luxuoso apartamento em Nova York deixado por Nick quando da separação (ele a trocou por uma jovem beldade). De repente, Maria, a primeira mulher de Nick, exige morar no apartamento, pois também tem direitos. Por fim, Antonia, filha de Maria e Nick, chega ao apartamento em busca de trabalho na metrópole americana. 

O convívio diário entre as mulheres rende situações às vezes cômicas, outras vezes dramáticas. Enquanto Jade luta pela ascensão profissional, inserindo Antonia em seu cotidiano de trabalho, Maria aceita sua condição de aposentada, cuidando dos afazeres domésticos, além de trabalhos na área acadêmica. Os conflitos permeiam a trama com direito a final irreverente.  

Nosso ex-marido (Forget about Nick, Alemanha, 2017), de Margarethe von Trotta. Com Ingrid Bolso Berdal (Jade), Katja Riemann (Maria), Haluk Bilginer (Nick), Tinta Fursk (Antonia).

A sorridente Madame Beudet

Madame Beudet está enclausurada em um casamento monótono, representação da sociedade que relega a mulher ao papel de dona de casa amorosa, cuja obrigação é sentir-se feliz diante da vida confortável proporcionada pelo casamento. Cada vez mais triste e deprimida, Madame Beudet enseja sua única possibilidade de libertação: a morte do marido.

A diretora Germaine Dulac fez parte do círculo de cineastas experimentais da última década do cinema mudo, reunidos em torno do movimento denominado impressionismo francês. Seus filme buscavam ao mesmo tempo a poesia das imagens e a representação da opressão feminina, sendo por isso considerada uma das primeiras autoras do cinema feminista.

“O elemento mais cativante de A sorridente Madame Beudet é composto pelas elaboradas sequências de sonho em que a dona de casa do título (Germaine Dermoz) fantasia uma vida fora dos limites da sua existência monótona. Usando efeitos especiais radicais e técnicas de montagem, Dulac incorpora alguns dos elementos estéticos de vanguarda da época para contrastar o poder feminino rico e vigoroso da vida imaginária de madame Beudet com o tédio da rotina compartilhada com seu marido (Alexandre Arquillière).” 

A sorridente Madame Beudet (La souriante Madame Beudet, França, 1923), de Germaine Dulac. Com Germaine Dermoz, Alexandre Arquillère, Jean D’yd.