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Sobre Robertson B. Mayrink

Publicitário, jornalista, especialista em língua portuguesa, mestre em cinema pela EBA/UFMG. Professor de cinema e de criação publicitária. Coordenador do curso de Cinema e Audiovisual da PUC Minas. Coordenador do curso de Publicidade e Propaganda da PUC Minas. Coordenador da especialização em Roteiro para Cinema e TV do IEC PUC Minas.

A esposa

Filme abre com o casal Joan e Joe Castleman recebendo ligação informando que o escritor Joe receberá Prêmio Nobel de Literatura. A trama narras os conflitos do casal, envolvendo o filho também escritor, durante a viagem para receber o prêmio. 

Glenn Close foi indicada ao Oscar de melhor atriz e praticamente carrega o filme. A princípio, os conflitos indicam traumas em família: a infidelidade de Joe, a frustração do filho escritor que sente a sua literatura desprezada pelo pai, a necessidade de afirmação de Joan diante do sucesso do marido. A entrada em cena do jornalista disposto a escrever a biografia do escritor provoca a virada do roteiro, pois Joan pode esconder segredo relacionado a autoria dos textos literários de Joe. 

A esposa (The wife, EUA, 2017), de Bjorn Runge. Com Glenn Close (Joan Castleman), Jonathan Pryce (Joe Castleman), Christian Slater (Nathaniel Bone), Max Irons (David Castleman). . 

Todos já sabem

O diretor iraniano Asghar Farhadi (dos premiados A separação e O apartamento) reúne elenco de peso em Todos já sabem. A narrativa parte da chegada de Laura e seus dois filhos, vindos da Argentina, ao seu povoado natal na Espanha para as festividades do casamento de sua irmã.

O casamento reúne a grande família, amigos de infância, entre eles Paco, ex-namorado de Laura. É o típico filme de drama familiar movido a ressentimentos do passado, amores deixados para trás e segredos perturbadores. A virada da trama acontece na noite do casamento, forçando Laura e Paco a se defrontarem com o segredo que todos já sabem. O cinema de Asghar Farhadi aborda esses universos particulares carregados da complexidade humana; tramas concentradas em pequenos ambientes familiares que dialogam com a cultura de cada país. 

Todos já sabem (Todos lo saben, Espanha, 2018), de Asghar Farhadi. Com Javier Bardem (Paco), Penélope Cruz (Laura), Ricardo Darin (Alejandro), Eduard Fernández (Fernando).

Uma quase dupla

A investigadora Keyla chega à cidade de Joinlândia para elucidar crime que se anuncia como a primeira investida de um serial killer. Sua dupla de trabalho é Cláudio, morador da cidade. Enquanto os crimes acontecem, Keyla e Cláudio enveredam por trapalhadas típicas do gênero comédia de duplas de policiais. 

Tatá Werneck é a estrela do filme, proporcionando momentos engraçados bem ao seu estilo de disparar diálogos como metralhadora. Cauã Reymond faz o estilo policial galã, preocupado em tingir os cabelos e posando para o espelho. O roteiro não ajuda os atores, os clichês se sucedem crime a crime. Resta ao espectador se entregar ao carisma dos protagonistas. 

Uma quase dupla (Brasil, 2018), de Marcos Baldini. Com Tatá Werneck (Keyla), Cauã Reymond (Cláudio), Ary França (Moacyr), Alejandro Claveaux (Augusto).  

As duas faces da felicidade

François e Thereze estão em um bosque com seus dois filhos pequenos. Momento de idílio na vida do casal feliz, a esplendorosa fotografia evidenciando a beleza do campo, dos personagens em sua juventude feliz. Em viagem ao interior a trabalho, François se apaixona por Emilie e passa a viver em duplicidade, declarando amor incondicional às duas mulheres.

Agnès Varda compõe um filme esteticamente fascinante, com a fotografia elevando o tom de felicidade que se anuncia para os integrantes do triângulo amoroso. O estilo nouvelle-vague está presente em cortes abruptos, cenas quase subliminares inseridas entre os acontecimentos. A virada da trama determina o olhar crítico da cineasta à sociedade que privilegia o bem-estar do homem.  

As duas faces da felicidade (Le bonheur, França, 1964), de Agnès Varda. Com Jean-Claude Drouot (François), Marie-France Boyer (Emilie), Claire Drouot (Thereze).

Torquato Neto – Todas as horas do fim 

Natural de Teresina/Piauí, Torquato Neto (1944/1972) foi dos mais ativos e precoces integrantes do grupo cultural que inovou a música, as letras e o cinema entre os anos 60 e início da década de 70. Poeta, letrista, ator, cineasta, cronista cultural, Torquato transitou pela arte com intensidade trágica. 

Os diretores do documentário se debruçam sobre a breve vida do artista (Torquato se matou aos 28 anos de idade) com sensibilidade. A narrativa usa poemas e textos do autor, lidos por Jesuíta Barbosa; fotografias de Torquato e cenas de suas participações em filmes de Ivan Cardoso; imagens de películas importantes do cinema novo e cinema marginal; depoimentos de artistas do calibre de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Augusto de Campos, Tom Zé, Jards Macalé, entre outros. Registros históricos apresentam Gal Costa e outros famosos interpretando belas canções compostas por Torquato Neto.  

Torquato Neto – Todas as horas do fim é poesia do início ao fim. Poesia nas letras das canções, nas cartas, nas fotos do belo Torquato, nas imagens dos filmes, nos textos. Documentário para ouvir, ver e rever. 

Torquato Neto – Todas as horas do fim (Brasil, 2018), de Eduardo Ades e Marcus Fernando.

As viúvas

Quatro assaltantes, liderados por Harry (Liam Neeson), executam assalto, são perseguidos pela polícia e executados durante tiroteio em uma garagem. O dinheiro era destinado a um político que lidera a máfia em Chicago. O político ameaça Verônica (Viola Davis), mulher de Harry, caso não consiga reaver o dinheiro. Verônica reúne as outras viúvas do assalto fracassado para arquitetar um novo golpe e devolver o dinheiro. 

O filme é adaptado de série inglesa dos anos 80. A ação dá o tom da narrativa, com fortes papéis femininos e virada de roteiro que revela intrincados jogos de poder nos processos eleitorais. Viola Davis domina a película, marcada pela crítica social e política. 

As viúvas (Widows, Inglaterra, 2018), de Steve McQueen. Com Viola Davis, Michelle Rodriguez, Elizabeth Debicki, Colin Farrell, Liam Neeson.

Temporada

Uma das marcas da estética neorrealista é a câmera centrada no cotidiano de personagens em atitudes comuns do dia-a-dia. Algo como deixar o espectador contemplar o vagar do dia. Temporada parte deste princípio, seguindo a rotina de Juliana e seus colegas de trabalho na periferia de Contagem. Ela trabalha no combate a endemias, batendo à porta das casas para revirar entulhos à cata de pragas. As lentes acompanham a monotonia dos atos, em outros momentos centra o foco na tentativa de Juliana interagir e se divertir do jeito que é permitido nestes recantos da cidade. Nada de mais acontece na vida de Juliana: ela espera a chegada do marido, tenta novos relacionamentos e, no fim, pratica um ato transgressor. 

Temporada ganhou o Grande Prêmio do Festival de Brasília por conta de dois nomes promissores no cinema nacional: o diretor André Novais e a atriz Grace Passó.

Temporada (Brasil, 2018), de André Novais Oliveira. Com Grace Passó, Russo APR, Rejane Faria, Hélio Ricardo. 

Guerra fria

Zula chega a uma casa no interior da Polônia para participar de concurso de canto. A casa abriga uma espécie de conservatório mantido pelo governo comunista, cuja intenção é montar grupos para difundir a música polonesa tradicional, reforçando os valores patrióticos. O maestro e compositor Wictor é responsável pela seleção e ensaios dos candidatos. 

Guerra fria tem espetacular fotografia em preto e branco, acentuando o tom dramático do país envolto nas questões políticas que negam a liberdade individual. Wictor e Zula se apaixonam e percorrem o país em apresentações musicais. Zula se torna cantora de sucesso, mas Wictor acalenta o sonho de fugir da Polônia e seguir sua carreira em Paris. A bela e melancólica trilha sonora pontua a história marcada pela tentativa de permanência do amor confrontado com as escolhas de Zula e Wictor. A tristeza recorrente da incapacidade de adaptação dos expatriados é outra forte presença na película que concorreu ao Oscar de filme estrangeiro.

Guerra fria (Zimna Wojna, Polônia, 2018), de Pawel Pawlikowski. Com Joanna Kulig (Zula), Tomasz Kot (Wictor). 

Assunto de família

O filme venceu a Palma de Ouro no Festival de Cannes 2018. Uma pobre família japonesa, formada pelos pais e filhos, vive de pequenos furtos em supermercados e lojas de conveniência. Osama treina o filho na arte de roubar e, após uma investida, encontram uma garotinha chorando na varanda de uma casa. A garota é levada para casa e adotada pelo casal que, ingenuamente ou não, reluta em aceitar que praticaram sequestro. 

Assunto de família traz a tona a realidade de famílias que vivem à margem de sociedades desenvolvidas, desempregados que se viram no dia-a-dia, crianças que crescem nas ruas, pais que se entregam aos seus problemas de relacionamentos e negligenciam filhos pequenos. A virada de roteiro revela um segredo assustador envolvendo o casal Osama. O final, visto pelo olhar das crianças, é de uma tristeza que faz pensar sobre os caminhos da sociedade.  

Assunto de família (Manbiki Kazoru, Japão, 2018), de Hirokazu Kore-Eda. Com Kirin Kiki, Lilly Franky, Sakura Andô, Sósuke Ikematsu.

Cafarnaum

Cafarnaum é de verter lágrimas em diversas cenas. Começa com Zain, garoto de 12 anos, preso por esfaquear um homem. Flashbacks narram a saga do garoto, morador de uma favela de Beirute. Ele tem relação protetora com a irmã mais nova e se revolta quando ela é oferecida a um comerciante para casamento. Ele foge de casa, empreende jornada miserável pelas ruas da cidade até ser abrigado por uma refugiada da Etiópia. 

A câmera realista acompanha a luta de Zain por sobrevivência em meio ao caos da capital libanesa. A humanidade e coragem do garoto são motivadores, como a dizer que resta sempre esperança na miséria; que é preciso combater com toda vontade a crueldade dos adultos que exploram até a morte homens, mulheres e crianças. 

Cafarnaum (Capharnaum, Líbano, 2018), de Nadine Labaki. Com Zain Al Raffea, Yordanos Shiferaw.