Human flow: não existe lar se não há para onde ir

O premiado artista chinês Ai Weiwei  compôs um painel impactante e doloroso sobre a situação de refugiados espalhados pelo mundo. Durante um ano, o diretor e sua equipe filmaram o cotidiano de 40 campos de refugiados, em 23 países, entre eles: Líbano, Quênia, Bangladesh, a fronteira entre o México e os Estados Unidos.

“Não é apenas um problema político, mas uma questão humanitária e moral”, afirmou o diretor. As imagens do documentário, com uma edição primorosa, retratam o lado humano dos refugiados: o cuidado que eles têm uns com os outros, a luta pela sobrevivência em situações muitas vezes precárias, o sofrimento pela indefinição das condições dos refugiados de apátridas.

As imagens são acompanhadas de informações de estarrecer, por exemplo, só no Iraque, quatros milhões de pessoas já abandonaram suas casas desde os anos 80; 56 mil refugiados sírios, iraquianos e iranianos cruzam a Grécia toda semana. O documentário é muito mais do que uma denúncia, é uma potente declaração humanitária que deveria ecoar fundo nas nações que fecham os olhos diante dessa escravidão moderna. 

Human flow: não existe lar se não há para onde ir (Human flow, Alemanha/EUA, 2017), de Ai Weiwei.

Foro íntimo

O diretor Ricardo Mehedff inspirou-se em fatos reais para compor um retrato claustrofóbico da justiça brasileira. O Juiz Gustavo Ferreira está  trancafiado no Fórum de Belo Horizonte, protegido por agentes de segurança. Sua esposa e filho se mudaram para Buenos Aires. O juiz é o responsável por um caso judicial que envolve um senador da república. Por questões de segurança, a escolta policial do juiz não deixa que ele saia do Fórum e controla até mesmo os casos que ele vai analisar em seus dias de trabalho. 

O suspense da trama se evidencia em detalhes como o apagar de luzes dos ambientes, passos que se escutam, o bater de portas, um cruzamento de olhares nos corredores do tribunal. O ponto forte do filme é a claustrofobia que transparece no juiz, sentenciado à reclusão, dormindo, comendo, vivendo em seu minúsculo gabinete. As opções estéticas e de linguagem durante a trama evidenciam o medo e o desespero do juiz ao se sentir como muitos daqueles que cumprem penas em prisões, após serem julgados por ele. 

Foro íntimo (Brasil, 2017), de Ricardo Mehedff. Com Gustavo Werneck (Juiz Gustavo Ferreira), Jefferson da Fonseca (Agente Fontes), Beatriz França (Bia), Léo Quintão (Promotor Donato).

Clímax

Lettering avisa, na abertura, que a trama é inspirada em fatos reais. Logo após, uma série de imagens em planos fechados apresentam ao público vinte personagens, dançarinos, que vão se reunir em um internato no meio da floresta gelada, para um ensaio de três dias. 

Corta para o galpão onde acontecem os ensaios. Após um dos ensaios, acontece uma festa regada a bebidas e drogas. Passo a passo, os dançarinos se comportam de forma alucinada, agressiva, cada um revelando desejos e instintos incontroláveis. Aparentemente, alguém colocou um tipo de droga na bebida servida na festa. 

O polêmico e ousado diretor Gaspar Noé usa desse ato comum, no Brasil conhecido como “Boa noite Cinderela”, para compor um retrato insano, agressivo, erótico, quase repulsivo, desse grupo de jovens enclausurados. A montagem do filme usa de tomadas longas, planos-sequências, travellings desordenados. 

Em Clímax, Gaspar Noé não precisou recorrer a um dos seus elementos fílmicos favoritos: filmagem de cenas de sexo explícitas. A insanidade que toma conta dos dançarinos e a própria insanidade da linguagem bastam para provocar o espectador.  

Climax (França, 2018), de Gaspar Noé.

A casa lobo

Sombras e pinturas que se formam nas paredes de uma casa. Porquinhos que viram crianças. Uma jovem que transita pelos meandros da escuridão, ouvindo a voz do lobo do lado de fora. Ecos de um passado aterrorizante, referências ao horror nazista e ao terror do regime de Pinochet. 

A casa lobo, dos chilenos Cristóbal León e Joaquín Cociña, é essa adorável e assustadora animação, misturando técnicas de stop motion e jatos nas paredes. É a história de Maria, uma jovem que foge de uma colônia alemã e se refugia em uma casa abandonada. Seus companheiros são dois porquinhos e a ameaçadora voz do lobo. A releitura dos contos de fada ganha uma estética gótica, trazendo à vida os espectros mais sombrios de nossa imaginação. 

A casa lobo (La casa lobo, Chile, 2018), de Cristóbal León e Joaquín Cociña.

A torre

O diretor mineiro Sérgio Borges faz uma fascinante incursão pelos mistérios do tarô, inspirado no romance Coiote, do psiquiatra Roberto Freire. André, recém-separado, vive isolado em um bosque, transitando entre os meandros da natureza, forças também místicas. Entre encontros nas comunidades, sua ex-mulher que o visita, André se depara com um jovem que evoca o seu passado. A partir daí, sonho, realidade, fantasia, tudo se mistura, caminhando em direção à torre, carta do tarô que evoca um grande acontecimento, maior do que a realidade. 

“Toda a atmosfera construída representa o universo emocional do personagem, andando pelas sombras e tentando reencontrar a luz de alguma forma. O filme deixa margem para interpretação, ele sugere mais do que afirma. Vi um ritual de passagem entre idades, com o mais velho abandonando a sua juventude inocente e sedutora. É um acerto de contas: o jovem continua ali, provocando o homem mais velho. Tem uma ideia de morte e renascimento.” – Sérgio Borges (papo de cinema)

A torre (Brasil, 2019), de Sérgio Borges. Com Enrique Diaz (André), Caio Horowicz (Coiote), Maeve Jinkings (ex-esposa de André). 

A árvore dos frutos esquecidos

O diretor turco Nuri Bilge já se consagrou pelas narrativas longas, reflexivas, o tipo de cinema contemplativo que exige entrega do espectador. Ele ganhou a Palma de Ouro em Cannes pelo belo Sono de Inverno. Em A árvore dos frutos esquecidos, Nuri Bilge tece uma trama envolvendo um aspirante a escritor, Sinan, que volta para casa após terminar seus estudos superiores. 

Os conflitos do filme passam pelas frustrações literárias de Sinan e sua difícil relação com o pai, viciado em jogos de azar. A árvore dos frutos esquecidos é o título de seu primeiro livro, metáfora delicada para a simples, pacata e também contemplativa vida em pequenas comunidades, que às vezes se perde na busca por grandes aspirações. A volta para casa, para o seio da família, apesar de todos os problemas, provoca a reflexão, detona o gatilho das emoções simples do dia-a-dia. 

A árvore dos frutos esquecidos (Ahlat agaci, Turquia, 2018), de Nuri Bilge Ceylan. Com Dogu Demirkol (Sinan Karasu), Murat Cemcir (Idris Karasu), Serkan Keskin (Suleyman)

Os filhos de Isadora

No dia 19 de abril de 1913, o carro que transportava os dois filhos da dançarina Isadora Duncan caiu no Rio Sena, em Paris. As crianças, de 4 e 6 anos, faleceram no acidente. Como processo de luto que durou toda a sua vida, Isadora criou e performou a coreografia Mother, cujos temas eram a perda e o vazio. 

Em Os filhos de Isadora, o diretor Damien Manivel faz uma espécie de docudrama, colocando em cena três mulheres que reconstituem a célebre coreografia. Agathe Bonitzer recria e ensaia de forma solitária, tentando compreender, em frente ao espelho, a imensa dor desta perda. A professora Marika Rizz ensaia a coreografia com sua aluna Manon Carpentier, uma adolescente que sofre de síndrome de down. 

No término da apresentação de Manon, a câmera enquadra em travelling os espectadores, até parar em Elsa Wolliaston. A terceira parte é o grande destaque do filme. A câmera segue Elsa até a sua casa, em um lento e silencioso processo reflexivo sobre a arte. A lentidão e o imenso silêncio colocam o espectador em um estado contemplativo e reflexivo, quase uma imersão irrecuperável na dor de Isadora Duncan. 

Os filhos de Isadora (Les enfants D’Isadora, França, 2019), de Damien Manivel. Com Agathe Bonitzer, Manon Carpentier, Marika Rizzi, Elsa Wolliaston.

Estradeiros

O documentário segue a jornada de artistas de rua que perambulam pelo Peru, Buenos Aires, São Tomé das Letras, Recife e São Paulo. É um  road-movie de pessoas que se consideram livres, sem as amarras do mundo capitalista, vivendo de sua produção artesanal, vendida nas ruas. 

Os depoimentos transitam por reflexões sobre as cidades, as ruas, a sociedade que insiste em rotular. Estradeiros demonstra que histórias verdadeiras,  comoventes, divertidas, que provocam reflexões, são a base dessa vida nômade. Viajar sem destino, muitas vezes sem dinheiro, é a verdadeira essência da liberdade?

Estradeiros (Brasil, 2011), de Sergio Oliveira e Renata Pinheiro.

Açúcar

O filme abre com bela imagem de uma vela de barco vermelha deslizando pela tela em uma paisagem verde. O barco trafega por um canal, Bethânia está em pé, contemplando extasiada a paisagem. Ela está de volta à terra de sua família, uma decadente fazenda da era do açúcar. As terras e o engenho estão envolvidos em dívidas que Bethânia não tem como pagar. 

A narrativa perpassa pelos resquícios dos conflitos raciais e sociais originados nos tempo da escravidão. Os moradores, entre colonos e habitantes da vila, a maioria afrodescendentes, mantém uma ONG destinada a preservar e divulgar a cultura negra. O conflito do filme está centrado nas questões psicológicas de Bethânia: ela luta para preservar a fazenda, enquanto resiste em se entregar à sua verdadeira descendência. 

A estética de Açúcar é deslumbrante, com destaque para as belas paisagens e imagens oníricas, quase surrealistas, de figuras folclóricas. O final é misterioso, intrigante, o fascínio do duplo. 

Açúcar (Brasil, 2017), de Renata Pinheiro e Sergio Oliveira. Com Maeve Jinkings (Bethânia), Dandara de Morais (Alessandra), Magali Biff (Branca), Zé Maria (Zé). 

O ornitólogo

Fernando está sozinho na selva, observando pássaros. Durante uma travessia de caiaque pelo rio, ele é surpreendido pela correnteza e se acidenta. Quando acorda, na margem, está perdido. 

É o início de uma jornada espiritual, metafísica, durante a qual Fernando se defronta com pessoas estranhas e perigosas. Duas jovens chinesas, fanáticas religiosas, o amarram e ameaçam castrá-lo. Um jovem mudo, chamado Jesus, é pastor de cabras. Os dois vivem um momento amoroso que termina tragicamente. Um grupo de amazonas nuas se dispõe a guiar o ornitólogo para fora da floresta, mas ele recusa. 

O filme de João Pedro Rodrigues é uma releitura do mito português de Santo Antônio. A jornada de Fernando é uma jornada de autodescoberta, transformação, se entrega à espiritualidade em uma comunhão entre homem e natureza. A obra exige a entrega contemplativa e espiritual que o cinema incentiva. 

O ornitólogo (Portugal, 2016), de João Pedro Rodrigues. Com Paul Hamy (Fernando), João Pedro Rodrigues (Antonio), Xelo Cagiao (Jesus), Han Wen (Fei), Chan Suan (Ling).