O mundo odeia-me

O começo do filme é assustador. A câmera foca apenas os pés de um homem na estrada, pedindo carona. Carros atendem ao pedido e motoristas e passageiros são assassinados pelo caroneiro. Ouvem-se apenas tiros, gritos de mulher, os pés voltam para a estrada. 

Ida Lupino, única mulher a dirigir no sistema de estúdios em Hollywood na década de 50, realizou um thriller composto por, praticamente, três personagens. Após os assassinatos nos primeiros minutos, Emmett Myers consegue carona com Ray e Frank, dois amigos que rumam para uma pescaria. Sentado no banco de trás, Emmett força os amigos a empreenderem uma jornada por cerca de 800 km, a caminho de um barco no litoral. 

Impressiona a passividade de Ray e Frank que, enquanto dirigem, se sujeitam às ameaças, agressões e tenebrosas brincadeiras de Emmett. Em uma das paradas, o assassino testa a pontaria de Frank, exigindo que ele atire à distância em uma lata que está na mão de seu amigo Ray. O que sobressai no filme é a mente doentia do caroneiro, enquanto os dois amigos simplesmente aguardam o momento de serem executados. 

O mundo odeia-me (The hitch-hiker, EUA, 1953), de Ida Lupino. Com Edmund O’Brien (Ray Collins), Frank Lovejoy (Gilbert Bowen), William Talman (Emmett Myers). 

Quando chega a escuridão

Caleb vê Mae saindo do bar à noite. Oferece a ela uma carona, os dois vagueiam pela estrada até que, perto do amanhecer, Mae implora para ser levada embora. O jovem se recusa, começa a beijá-la até ser mordido no pescoço. 

Quando chega a escuridão é a típica história de vampiro com tons modernos que fez muito sucesso nos anos 80, a exemplo de Fome de Viver (1983) e Garotos perdidos (1987). Quando se transforma em vampiro, Calebe se junta à  gangue liderada por Jess, todos com visuais que remetem a jovens rebeldes. Como Caleb se recusa a matar e beber sangue humano, Jess dá a ele 24 horas para se decidir, do contrário morrerá. 

A estética da película é marcada pelos tons sombrios da noite, com névoas recortando os vampiros em belas cenas nas estradas. Outra característica do cinema dos anos 80 que buscou inspiração no cinema noir, consagrando o que foi categorizado como neo noir.  A violência apresenta sua cara na sequência do bar e no final do filme, com destaque para o menino vampiro queimando na estrada enquanto corre atrás da menina por quem se apaixonou. 

Quando chega a escuridão (Near dark, EUA, 1987), de Kathryn Bigelow. Com Adrian Pasdar (Cale), Jenny Wright (Mae), Lance Henriksen (Jesse), Bill Paston (Severen), Jenette Goldstein (Diamondback), Tim Thomerson (Loy), Joshua Miller (Homer), Marcie Leeds (Sarah). 

O cigarro

Pierre Guérande, diretor de um museu em Paris, está envolvido em uma pesquisa sobre  faraó egipcio que cometeu suícidio. Ele é casado com uma mulher muitos anos mais nova e começa a desconfiar que está sendo traído. Pierre não julga a esposa, pois reflete que é natural, devido a diferença de idade, mas resolve experimentar a mesma técnica de suicidio do faraó: Pierre introduz veneno em um cigarro e o mistura com outros dentro de seu estojo. Dessa forma, não sabe que dia vai morrer. 

Germaine Dulac faz um fascinante estudo sobre relações amorosas, desilusões, frustrações à medida que o tempo passa, inserindo nessas questões um tema sempre tabu na sociedade: o suicídio. Filme reflexivo e sensível, marca da grande Germaine Dulac e do movimento ao qual fez parte, o impressionismo francês.

O cigarro (La cigarette, França, 1919), de Germaine Dulac. Com Gabriel Signoret, Andrée Brabant, Jules Raucourt.

Aves de rapina – Arlequina e sua emancipação fantabulosa

O filme foi um fracasso de bilheteria nos cinemas e recebeu avaliações ruins por parte da crítica. Coisas do público exigente e da crítica incapaz de se entregar à uma sessão de cinema buscando apenas entretenimento e escapismo. Aves de rapina – Arlequina… é puro entretenimento com muita ação, bom humor e empoderamento feminino. 

Conhecida como a namorada do Coringa, Arlequina se julga imune em seus crimes. Ela já recebeu o fora do inimigo mais poderoso do Batman, mas esconde de todos que está solteira e, convenhamos, ninguém em sã consciência vai se arriscar a mexer com a namoradinha do Coringa. Como mentira tem pernas curtas, a realidade vem à tona e a própria Arlequina resolve se emancipar.

Margot Robbie é um show à parte na pele de Arlequina, destilando veneno, sadismo, piedade, enfim, tudo misturado com toques de humor nonsense, cativando o espectador. O encontro com as Aves de Rapina dá o tom definitivo à trama que une mocinhas e bandidas, ou vice-versa, para estraçalhar os redutos machistas. Deleite-se e esqueça essa comparação inútil sobre a qualidade dos filmes da Marvel e da DC Comics. Afinal, todos adoramos esse universo de super heróis e super heroínas. 

Aves de rapina – Arlequina e sua emancipação fantabulosa (Birds of prey – And the fantabulous emancipation of one Harley Quinn, EUA, 2020), de Cathy Yan. Com Margot Robbie (Alequina), Jurnee Smollett-Bell (Canário Negro), Mary Elizabeth Winstead (Caçadora), Ella Jay Basco (Cassandra Cain), Rosie Perez (Renee Montoya), Ewan McGregor (Máscara Negro), Chris Messina (Victor Zsasz).    

Pelas ruas de Paris

Em uma boate, Anna conhece Greg. Os dois começam um relacionamento que se estende pelo tempo que não é demarcado para o espectador. Os conflitos do relacionamento se misturam à embates sociais e políticos, quando manifestantes tomam as ruas de Paris, assim como a jovem Anna que vive seus dilemas caminhando e correndo pela cidade. 

A narrativa não é o ponto central da trama. A diretora Elisabeth Vogler pratica intensas experimentações visuais à medida que Anna se defronta com ela mesma, buscando sentido para seus dias, seu relacionamento. Mesmos dilemas que afetam os moradores de Paris que se encontram em meio a crises existenciais motivadas pelas incessantes crises que assolam o país, inclusive resultados de atos terroristas. Um acidente de avião é o marco simbólico, pois representa a ruptura entre vida e morte, acaso e destino, provocando ainda mais as pessoas que ao mesmo tempo que tentam interferir se encontram passivos diante do destino.  

Pelas ruas de Paris (Paris est à nous, França, 2019), de Elisabeth Vogler. Com Noémie Schmidt (Anna), Grégoire Isvarine (Greg).

Across the universe

Assistir a um filme baseado em canções dos Beatles já vale apenas pela música, qualquer que seja o filme, e nem precisa ser beatlemaníaco, basta se enlevar com  as belas canções compostas por Lennon e McCartney que insuflam gerações há décadas. Across the universe vai além com a narrativa que mistura romance, ativismo político, conflitos raciais, discussões de gênero, tudo pontuado por interpretações belíssimas de I want you handLet it beHey JudeStrawberry fields forever e muito mais. 

Jude é um jovem inglês, trabalhador de um estaleiro em Liverpool. Viaja aos EUA para conhecer o pai, que engravidou sua mãe durante a Segunda Grande Guerra. Na América, desenvolve forte amizade com o universitário Max, vai morar em um apartamento habitado por personagens da contracultura dos agitados anos 60: a jovem lésbica Prudence, a cantora de boates Sadie, o guitarrista negro Jo-Jo. Quando Jude conhece Lucy, irmã de Max, a paixão é arrebatadora e acompanha os clichês naturais do gênero: início de enternecer corações, com erotismo aflorando, conflitos pessoais que afastam os amantes até o apoteótico final, tudo com direito às inesquecíveis canções dos Beatles. Enfim, Across the universe vale a sessão fílmica, sonora, imagética, sensual…

Across the universe (EUA, 2007), de Julie Taymor. Com Ewan Rachel Wood (Lucy), Jim Sturgess (Jude), Joe Anderson (Max), Dana Fuchs (Sadie), Martin|Luther McCoy (Jo-Jo), T.V. Carpio (Prudence). 

Meio irmão

Sandra (Nathália Molina) e Jorge (Diego Avelino) são irmãos de pais diferentes, mas não se relacionam. Os dois vivem problemas típicos da periferia da cidade, convivendo com a violência social enquanto lutam pela sobrevivência cotidiana. Os dois se aproximam quando a mãe de Sandra desaparece de casa, colocando a adolescente em problemas que vão desde idas à polícia, ameaças de credores que cobram dívidas deixadas pela mãe, falta do que comer em casa, além de conflitos na escola. 

A diretora Eliane Costes debate questões que permeiam a vida da periferia, como pais ausentes, filhos que crescem em comunidades complexas, muitas vezes violentas com os jovens, principalmente quando suas escolhas não se adequam aos valores sociais dominantes. A câmera da diretora filma tudo quase como um registro documental, sem conclusões em questões narrativas, sem julgamentos. Apenas acompanha os jovens em sua difícil lida cotidiana. 

Meio irmão (Brasil, 2018), de Eliane Coster. Com Nathália Molina (Sandra), Diego Avelino (Jorge), Francisco Gomes. 

Papicha

A estreante diretora Mounia Meddour compõe dois mundos que se encontram: o do idealismo das jovens estudantes, liderada por Nedja, que se recusam a aceitar os dogmas impostos pelos grupos radicais, entre eles se esconder atrás dos austeros hijabs; e a violência das ruas, marcada por atos cruéis, como uma mulher que saca a arma debaixo do hijab e atira a sangue-frio. 

Nedja representa a juventude rebelde, que ama o país em que vive e de dispõe a lutar contra as convenções. Sua luta é simbolizada por um desfile de moda que deseja realizar na escola. As vestimentas coloridas que prepara, usando elementos como a terra (simbolismo) traz vida às jovens, às mulheres, que segundo leis incompreensíveis devem se esconder debaixo das roupas, nas casas, servindo aos homens. 

Papicha (Argélia, 2019) de Mounia Meddour. Com Lyna Khoudri (Nedjma), Shirine Boutella (Wassila), Hilda Amira Douaouda (Samira), Yasin Houcha (Mehdi). 

Retrato de uma jovem em chamas

França, século XVIII. Marianne (Noémie Merlant) desembarca em uma ilha. Ela foi contratada para pintar o retrato da jovem Héloise ( Adèle Haenel) que vive reclusa na ilha com sua mãe. O quadro será enviado para o futuro marido de Héloise, que ainda não a conhece. O processo da pintura é longo, pois atrasar o término é, de certa forma, atrasar o casamento indesejado. 

A narrativa acompanha de forma linear o relacionamento de Marianne e Héloise, a princípio dominado pelo silêncio. As duas caminham pela ilha, contemplando a natureza, se contemplando, deixando-se levar cada vez mais pela afetividade, pela atração de duas jovens solitárias que buscam, cada uma a sua forma, a beleza da arte. Beleza que se revela em imagens sensíveis de Marianne e Héloise, entregues àquele mundo só delas, como se cada momento fosse destinado a este encontro inevitável, enquanto esperam o destino já traçado: deixar a ilha e entrar no cruel mundo determinado pelas convenções sociais da família, dos homens. Atenção para a tocante cena final na ópera, momento em que a arte conversa com essas mulheres a quem não foi permitido se entregar as suas escolhas. 

Retrato de uma jovem em chamas (Portrait de la femme fille en jeu ,França, 2019 ), de Céline Sciamma. Com Noémie Merlant, Adèle Haenel, Luàna Bajrami.

High life – Uma nova vida

Grupo de criminosos, todos condenados à morte ou prisão perpétua, aceita participar de exploração espacial. O destino da nave é encontrar um buraco negro nos confins da galáxia. O filme é contado sob o ponto de vista de Monte (Robert Pattinson) que no início da trama está sozinho na nave com uma bebê. Narrativa em flash back elucida o destino dos outros tripulantes. 

O olhar da diretora Claire Denis se volta para os instintos que dominam homens e mulheres enclausurados, cujo passado violento aflora e precisa ser controlado através do uso de drogas. Os tripulantes são manipulados pela inescrupulosa médica Dibbs (Juliette Binoche), cujo crime que cometeu, segundo ela mesma, é o único digno do nome. O final enigmático faz referência clara ao maior filme de ficção científica de todos os tempos: 2001 – Uma odisséia no espaço.  

High life – Uma nova vida (High life, EUA, 2018), de Claire Denis. Com Robert Pattinson, Juliette Binoche, André Benjamin. Mia Goth, Agata Buzek.