A comuna

Erik, professor de arquitetura, é casado há 15 anos com Anna, uma influente apresentadora da televisão norueguesa. Erik recebe uma enorme casa de herança e para conseguir manter os custos da residência, o casal convida vários amigos para morarem juntos, formando uma comunidade. As decisões cotidianas são resolvidas em reuniões à mesa, lideradas por Ole. A harmonia da comunidade ameaça ser rompida quando Erik se apaixona por Emma, uma aluna. Após uma separação amigável, Erik leva Emma para morar na comunidade. 

Thomas Vinterberg (Festa de família), ambienta essa comunidade conflituosa, mas ao mesmo tempo regida pelas leis da amizade, nos anos 70. Os adultos às vezes explodem em crises histéricas, outras vezes se regalam à vinho e olhares cúmplices na mesa. A liberdade sexual está expressa no comportamento de Erik e Anna, no entanto, ela se mostra passo a passo despreparada para essa maturidade compreensiva. 

O contraponto dos adultos é o menino Vilads – ele tem problemas cardíacos e diz a todo mundo que conhece: vou morrer quando fizer nove anos – e a adolescente Freja, filha do casal, que assiste a tudo entre o deslumbramento e a decepção. A grande e tocante sequência do filme é quando Vilads se deita nos ombros da mãe olhando com o olhar terno para Freja, que acaba de apresentar seu namorado à comunidade. 

A comuna (Kollektivet, Dinamarca, 2016), de Thomas Vinterberg. Com Trine Dyrholm (Anna), Ulrich Thomsen (Erik), Helene Reingaard Neumann (Emma), Martha Sofie Wallstrom Hansen (Freja), Lars Ranthe (Ole), Fares Fares (Allon), Magnus Millang (Steffen), Anne Gry Henningsen (Ditte), Julie Agnete Yang (Mona), Sebastian Gronnegaard Milbrat (Vilads).

Merry-go-round

O diretor Jacques Rivette se aventura por uma trama com ar de thriller policial. Elisabeth envia telegramas para o ex-namorado Ben, em Nova York, e para a irmã Léo em Roma. Os dois devem se juntar a ela em Paris para ajudá-la a vender as casas do pai, recém-falecido. No entanto, Elisabeth desaparece assim que Ben e Léo chegam em uma das casas. Os dois começam, então, uma estranha investigação sobre o paradeiro da jovem, passando por várias cidades e por outros relacionamentos também estranhos. 

A aventura policial resvala para dramas emocionais, filmados em caráter quase experimental pelo diretor. Tudo se resolve de forma simplista, o que interessa à Rivette é acompanhar as relações que se criam ao longo da narrativa, também sem profundidade. Merry-go-round faz parte de um gênero de sucesso, principalmente a partir dos anos 70: o road-movie. No entanto, o filme foi um fracasso de público e crítica, tendo como único atrativo trazer nos papéis principais duas estrelas: Maria Schneider e Joe Dallesandro.

Merry-go-round (França, 1981), de Jacques Rivette. Com Maria Schneider (Léo), Joe Dalessandro (Ben), Danièle Gégauff (Elisabeth), Sylvie Matton (Shirley). 

Iluminação

O filme abre com o Professor Wladyslaw Tatarkiewicz discursando para o espectador sobre o conceito de iluminação, definido por Santo Agostinho. A seguir, uma série de cenas do jovem Franciszek Reitman passando por provas físicas e psicológicas, visando sua aprovação em uma conceituada universidade polonesa para estudar física. 

A narrativa acompanha os conflitos psicológicos de Franciszek durante seus estudos e sua convivência social. É um embate entre a razão e a fé, entre o racionalismo e a emotividade. Tudo se transforma para o jovem estudante quando ele se apaixona, casa e tem um filho. 

Ao acompanhar dez anos na vida de Franciszek, o diretor Krzysztof Zanussi tece uma profunda reflexão sobre a juventude polonesa do pós-guerra que busca sentido para a vida na sociedade regida pelo comunismo. Promessas que não se cumprem, amores que devem sobreviver ou não às dificuldades cotidianas, a busca pelo trabalho, pelos estudos, o essencial contraponto entre a fé e a razão, é a Polônia refletida em um cinema poderoso e poético. 

Iluminação (Iluminacja, Polônia, 1973), de Krzysztof Zanussi. Com Stanislaw Latallo (Franciszek Retman), Monika Dzienisiewicz (Agnieszka), Małgorzata Pritulak (Małgorzata). 

Francis Ford Coppola – O apocalipse de um cineasta

As filmagens de Apocalypse Now (1979) foram uma das mais conturbadas da história do cinema. Francis Ford Coppola, equipe e família, se embrenharam durante 238 dias nas selvas Filipinas, convivendo com tempestades, insetos em profusão, doenças que afetavam a equipe (o protagonista Martin Sheen, então com 36 anos, sofreu um ataque cardíaco sério e ficou afastado cinco semanas). Coppola conviveu com tudo isso, chegando a níveis insuportáveis de exaustão que resultaram em discussões homéricas com membros da equipe, além de incontáveis sinais de que desistiria do projeto. Eleanor Coppola, esposa do cineasta, registrou dia-a-dia o caos, através de filmagens, anotações em seu diário e gravações de suas conversas com Coppola.  

“O Apocalipse de um cineasta” é amplamente considerado como um dos melhores filmes no subgênero vagamente conhecido como documentários de ‘making-of’, em grande parte graças ao acesso de seus criadores a materiais de fontes primárias que, normalmente, seriam extremamente difíceis de se obter. Entre as coisas a destacar (a descartar, do ponto de vista dos envolvidos): interrupções no local de filmagem provocadas pelas forças armadas filipinas; confissões cada vez mais pessimistas de insegurança e desânimo feitas pelo diretor à esposa; o ator Martin Sheen sofrendo um ataque cardíaco durante as filmagens, além de discussões acaloradas entre Coppola e dois dos principais membros do elenco, Dennis Hopper (aparentemente maconhado o tempo todo e incapaz de lembrar suas falas) e Marlon Brando (que apareceu no local das filmagens gordo e sem ter lido o romance de Conrad). Acrescente-se a isso a demissão do ator principal originalmente contratado, Harvey Keitel; um enorme tufão que destruiu diversos cenários; a eterna insatisfação de Coppola com a conclusão de seu filme. Considerando, ainda, o fato de que um projeto originalmente prevista para ter 16 semanas de filmagem acabou levando mais de três anos para ser finalizado, somos obrigados a concluir que os criadores de O apocalipse de um cineasta sabiam que tinham nas mãos um mina de ouro em forma de ‘making-of’.” 

Francis Ford Coppola – O apocalipse de um cineasta (Hearts of darkness: a filmmaker ‘s apocalypse, EUA, 1991), de Fax Bahr e Eleanor Coppola. Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.

Aloners

Jina (Gong Seung-Yeon), trabalha no centro de atendimento telefônico de uma empresa de cartão de crédito. Ela vive sozinha e evita qualquer tipo de relacionamento mais próximo, inclusive com seu pai. Considerada a melhor funcionária da empresa, sua chefe a incube de treinar uma nova atendende. Contra sua vontade, Jina aceita, mas não demonstra interesse nenhum na evolução da atendente. 

Aloners reflete o título: o grande tema do filme é a solidão em uma sociedade marcada pelas relações eletrônicas, frias. Jina passa seus dias aceitando e reforçando seu comportamento solitário. No entanto, a visão misteriosa de um fantasma no corredor do prédio onde ela mora pode traçar novos rumos. 

O grande momento do filme é um diálogo telefônico de um cliente que diz ter inventado uma máquina do tempo e precisa de um cartão de crédito que funcione em 2002. Questionado pela jovem atendente sobre porque ele deseja voltar a 2002, o cliente responde: por causa da Copa do Mundo Coreia/Japão, quando as pessoas se encontravam nas ruas, nos estádios, se abraçavam emocionadas. 

Aloners (Coreia do Sul, 2021), de Hong Sung-Eun. 

O poder da inquisição – As excomungadas de São Valentin

O historiador Mark Cousins disse que o cinema dos anos 70 trouxe aquilo que sempre quisemos ver nas telas. Está se referindo a nudez, sexo, violência. Sergio Grieco, diretor italiano do movimento conhecido por nunsploitation, faz parte desta galeria de realizadores que invadiram o cinema da época com filmes ousados, polêmicos, recheados de erotismo, sem se preocupar com o bom gosto. 

As excomungadas de São Valentin narra uma história de amor baseada em Romeu e Julieta. Esteban, da nobre família Albornoz, é apaixonado por Lucita Fuentes, cujo pai, Alfonso Fuentes, não aceita esse namoro, pois as duas famílias são rivais eternas. Como punição, Lucita é enclausurada em um convento Para completar, Alfonso acusa falsamente Esteban de um homicídio, tornando-o foragido da justiça. Perseguido pelos guardas, Esteban, ferido, se refugia no convento onde Elisa está. 

O filme se passa inteiramente dentro do convento. Elisa é asseadiada por Josefa, sua colega de quarto lésbica (atenção para a cena em que Josefa se acaricia nua na cama de Elisa). Logo depois, Josefa é assassinada e mistérios começam a ser investigados, revelando o sadismo sexual da Madre Superiora. 

A película é recheada de cenas de nudismo (seios das freiras aparecem em profusão), tortura praticada pela inquisição e uma sequência aterradora de amparedamento das freiras. Depois de tanto atrevimento, abusando do gosto duvidoso, Sergio Grieco brinda o espectador com uma virada na história de Romeu e Julieta. 

O poder da inquisição – As excomungadas de São Valentin (Le scomunicate de San Valentino, Itália, 1974), de Sergio Grieco. Com Françoise Prévost (Madre Superiora), Jenny Tamburi (Lucieta Fuentes), Paolo Malco (Esteban Albornoz), Franco Ressel (Alfonse Fuentes), Gino Rocchetti (Joaquim), Bruna Beani (Josefa).

Fabian – O mundo está acabando

A melancolia, angústia e desesperança da República de Weimar determina o contexto histórico do filme. Aos jovens, resta apenas aproveitar a boemia das noites de Berlim, enquanto tentam inutilmente estudar, trabalhar, sonhar com atividades artísticas. 

Fabian é um jovem publicitário que trabalha para uma empresa de cigarros. Ele conhece e se apaixona por Cornelia, uma bela e ambiciosa atriz. Seu melhor amigo é Labude, filho de um rico industrial que vive em bordéis, bêbado, enquanto tenta concluir sua dissertação de mestrado sobre literatura. 

Fabian perde seu emprego, é abandonado por Cornelia que se envolve com um produtor de filmes, Labude entra em uma jornada depressiva movida a álcool e prostitutas. Tudo caminha para essas incertezas sombrias que pairam sobre a Alemanha pré-nazismo, sobre a Europa, sobre a humanidade. Dois momentos trágicos simbolizam que não existe mesmo futuro para esses jovens sonhadores. 

Fabian – O mundo está acabando (Fabian oder der gang vor die hunde, Alemanha, 2021), de Dominik Graf. Com Tom Schilling (Jacob Fabian), Albrecht Schuch (Labude), Saskia Rosendahl (Cornelia).

Expresso para Bordeaux

Expresso para Bordeaux é o último filme do consagrado Jean-Pierre Melville, diretor que se destacou pelas suas ambições técnicas e narrativas, se aproximando do chamado “cinema de qualidade” francês. A narrativa acompanha um triângulo amoroso entre os amigos Edouard e Simon, ambos apaixonados por Cathy. É um filme policial com as características do cinema noir (Melville queria homenagear o gênero do cinema que mais amava, o americano). 

Simon lidera uma quadrilha de assaltantes. A longa e silenciosa primeira sequência é o assalto ao banco em uma cidade próxima a Paris. É a marca de Melville, presente em quase toda a progressão narrativa da pelicula: grandes silêncios, planos longos, muitas vezes em plano sequência. O caminho dos dois amigos se cruzam tragicamente durante a investigação desse e de outros crimes, colocando, principalmente Edouard, diante de seus princípios. 

O destaque da trama é a sequência do assalto ao trem, quando Simon e seus dois comparsas usam um helicóptero à noite. De novo, a marca de Melville: uma sequência longa e silenciosa, quase toda centrada em Simon, que desce do helicóptero para o teto do trem e depois para o interior. Expresso para Bordeaux é um clássico que exige do espectador aquilo que o cinema tem de potente: a necessidade da contemplação. 

Expresso para Bordeaux (Un flic, França, 1972), de Jean-Pierre Melville. Com Alain Delon (Comissário Edouard), Catherine Deneuve (Cathy). Richard Crenna (Simon), Riccardo Cucciolla (Paul Weber).

De volta ao pequeno apartamento

Após o clássico Os sapatinhos vermelhos (1948), a dupla Powell e Pressburger se volta para uma história simples, mas potente devido ao contexto histórico. Durante a Segunda Guerra Mundial, Sammy Rice trabalha em um departamento de pesquisa de tecnologia na Inglaterra. Ele é especialista em desarmar bombas e recebe a incumbência de auxiliar o Capitão Stuart para descobrir os mecanismos de desarmamento de uma complexa bomba alemã, que se assemelha a uma garrafa térmica. A bomba estava sendo colocada em locais de circulação de civis, vitimando inclusive crianças. 

A grande sequência do filme é a tensão lenta, angustiante, de Sammy tentando desarmar uma das bombas na praia. A narrativa também aborda os problemas pessoais do especialista. Ele é alcoólatra, vive em seu pequeno apartamento com Susan, que tem papel decisivo em sua vida. Susan ajuda o namorado a combater o vício e a insegurança diante de sua capacidade profissional. De volta ao pequeno apartamento reflete o nome: um filme simples, mas que retrata um momento de profundas angústias individuais e sociais, quando se destacam atos às vezes heróicos, outras vezes simples, na tentativa de preservar a humanidade. 

De volta ao pequeno apartamento (The small back room, Inglaterra, 1949), de Michael Powell e Emeric Pressburger. Com David Farrar (Sammy Rice), Kathleen Byon (Sasan), Michael Gough (Dick Stuart), Milton Rosmer (Prof. Mair).

Contos de Hoffmann

A ópera em technicolor de Powell e Pressburger é um deleite para o olhar e para os ouvidos. Em um bar, o poeta E. T. A. Hoffmann relembra e conta para seus amigos as três mulheres que fizeram parte de seus intensos relacionamentos amorosos. 

Olivia é uma boneca mecânica, controlada por seu pai e um inescrupuloso construtor de brinquedos. Giuletta é uma cortesã veneziana, sedutora, espécie de femme fatale que seduz e manipula seus amantes. Antonia é uma aspirante a cantora, filha de um compositor famoso, ela tem sérios problemas de saúde e depende de um médico que a usa para experimentações.

O prólogo e as três histórias são narradas inteiramente pelas músicas, com a fotografia e direção de arte características do technicolor: cores resplandecentes, exuberantes, de contrastes agressivos. Os cenários são de encher os olhos do espectador, representando simbolicamente as naturezas de cada uma dos amores de Hoffmann. Cinema, teatro, ópera, dança e música, Contos de Hoffmann é um filme que penetra em todos os sentidos. 

Contos de Hoffmann (The tales of Hoffmann, Inglaterra, 1951), de Michael Powell e Emeric Pressburger. Com Moira Shearer, Robert Rounseville, Ludmilla Tcherina, Ann Ayars, Pamela Brown.